ANÁLISE F1: Com “estações de carregamento”, quão diferente Silverstone realmente será em 2026?
Novo regulamento está prestes a enfrentar seu maior teste até agora no circuito britânico de alta velocidade
Se você pensava que o tema favorito de conversa da Fórmula 1 em 2026, a gestão de energia, tinha desaparecido por causa das soluções provisórias aplicadas em Miami e das mudanças maiores acordadas para 2027, pense de novo.
As corridas recentes em circuitos onde os carros estavam menos limitados pela energia talvez tenham colocado a conversa vexatória sobre gestão de energia em segundo plano, mas a chegada do fim de semana do GP da Grã-Bretanha trouxe a pauta de volta. A icônica pista de Silverstone foi rotulada como o "maior teste" deste conjunto de regras por Sergio Pérez e Max Verstappen admitiu ter 'gargalhado' ao experimentar o circuito no simulador com os carros 2026.
No centro da questão está a dicotomia que sustenta a versão atual dos regulamentos. Os circuitos que os pilotos mais gostam - rápidos, fluidos, com ênfase em alta velocidade - acabam sendo os mais problemáticos para a gestão de energia.
As unidades de potência de 2026, com o componente híbrido atual, precisam de zonas de frenagem significativas para que os pilotos recarreguem a bateria. Mas Silverstone, um dos circuitos com a maior porcentagem de 'pé embaixo' de todo o calendário, tem poucas dessas zonas e muitas curvas de alta velocidade, as quais terão de ser usadas como "estações de carregamento" para as longas retas que se seguem, como descreveu Fernando Alonso.
Algumas das curvas favoritas dos pilotos no calendário - como Copse, Maggotts, Becketts e Stowe - serão completamente arruinadas este ano?
O que vai realmente ser diferente em Silverstone e o que não vai
O maior ponto problemático destes regulamentos fica exposto quando os carros têm de percorrer uma distância significativa sem ter a oportunidade de recuperar energia em frenagem, seja em linha reta ou numa curva de alta velocidade onde não é necessária frear tanto. Foi isso que levou ao fenômeno do superclipping, em que os carros carregam a bateria 'contra' o motor na reta, mantendo a aceleração total. Isso desapareceu em grande parte na classificação graças a alguns ajustes de energia, mas Silverstone é provavelmente o exemplo mais extremo até agora.
Olhando especificamente para o circuito britânico, há duas áreas principais onde os pilotos terão de comprometer as curvas para otimizar o tempo total da volta. A primeira surge logo no início da volta, quando os carros normalmente passariam a fundo pelas Curvas 1 e 2 antes de irem para a fechada Curva 3 à direita.
Isso já não será o caso este fim de semana. Espera-se que os carros comecem a fazer clipping nas duas primeiras curvas, porque a reta Wellington que se segue, entre as Curvas 5 e 6, é uma das áreas onde ter carga na bateria será fundamental para otimizar o tempo total da volta.
Silverstone map
Photo by: Uncredited
Segue-se então uma oportunidade bem-vinda de carregamento em Brooklands (curva 6), antes de os carros seguirem para a temível curva Copse (c. 9). No ano passado, o pole position Lando Norris fez a curva à direita a mais de 300km/h, com receios de que a curva seja 'neutralizada' à medida que as velocidades nas curvas caiam. Fontes sugerem, no entanto, que a Copse continuará, em grande parte, sendo feita 'com pé embaixo' na classificação.
Na saída, espera-se até que os carros voltem a ter energia antes de seguirem para Maggotts (curva 11) e Becketts (c.12). Esta é a segunda área onde os carros de 2026 parecerão visivelmente diferentes, com a sequência sinuosa de mudanças de direção sendo usada para recarregar a bateria. Mais uma vez, trata-se de um compromisso imposto pela reta Hangar (entre curvas 14 e 15). Utilizar toda a energia disponível logo no início da reta e atingir a velocidade máxima o mais rapidamente possível é fundamental para o tempo de volta.
Os carros precisam acumular carga em suas baterias, que terão capacidade relativamente baixa, para conseguir fazer isso. Como não há frenagens na curva 15, algum trecho do circuito terá que ser sacrificado. Nesse caso, Maggotts (c. 11) e Becketts (c. 12) serão as "vítimas", o que explica por que os pilotos têm demonstrado tanto desânimo neste fim de semana. Forçar demais naquele que é o complexo de curvas favorito de muitos deles pode, na verdade, prejudicar o tempo de volta, pois isso fará com que a energia se esgote cedo demais na reta.
Também é esperado que as velocidades na Stowe (c. 15) sejam significativamente menores. No entanto, entende-se que isso se deve mais aos níveis reduzidos de downforce dos carros de 2026 do que a uma limitação rígida de gerenciamento de energia.
Fernando Alonso fears Maggotts and Becketts will be reduced to "charging stations" for the 2026 F1 cars
Photo by: Sam Bloxham / LAT Images via Getty Images
FIA reduz limites de energia
Na tentativa de evitar o pior efeito colateral desse regulamento, a FIA adotou uma abordagem conservadora em relação aos limites máximos de uso da energia para este fim de semana. Segundo informações, o limite de utilização foi fixado em 8MJ para a corrida e 6,5MJ para a classificação. Nos dois casos, isso representa uma redução de 0,5MJ em relação a Barcelona.
Apesar desta redução, espera-se ainda que os carros enfrentem superclipping no final das retas mais longas, embora a situação seja menos severa do que teria sido sem os ajustes às regras de Miami.
Corridas ioiô estão de volta?
Nas últimas etapas, as equipes vêm convergindo gradualmente para perfis de utilização de energia muito semelhantes na classificação, buscando extrair o máximo desempenho em uma única volta. Na corrida, porém, o uso da energia ganha um componente estratégico, com os pilotos podendo adotar perfis diferentes na tentativa de ultrapassar os adversários.
Como o desgaste dos pneus deve ser bem menor do que no GP da Áustria da semana passada, a dependência da unidade de potência para criar oportunidades de ultrapassagem será maior.
Devido à escassez de energia disponível neste circuito, existe uma possibilidade bastante real de que os pilotos utilizem toda a energia em uma reta para tentar ultrapassar, apenas para ficarem vulneráveis na reta seguinte e serem ultrapassados de volta, fenômeno apelidado de 'corrida iôiô'.
Isso é algo positivo ou negativo? Alguns fãs considerarão esse efeito artificial, enquanto outros preferirão ver mais disputas na pista. Em um circuito com desgaste limitado dos pneus, essa alternativa provavelmente seria uma corrida com pouquíssimas ultrapassagens e ação.
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