ANÁLISE F1: Leclerc superou Russell no Japão devido a estratégia inteligente da Ferrari; confira
Monegasco conseguiu arrancar o terceiro lugar de uma Mercedes que partiu como grande favorita, defendendo-se nas últimas voltas dos ataques do britânico
Suzuka tem duas faces. Por um lado, é uma pista esplêndida, uma das mais fascinantes do campeonato mundial e uma verdadeira joia no calendário da Fórmula 1. Por outro lado, especialmente nos últimos anos, não dá para negar que se tenham visto poucas ultrapassagens, devido a um traçado que oferece poucas oportunidades reais de ataque e à ausência de mais zonas DRS capazes de facilitar as manobras.
No entanto, o regulamento de 2026 mudou essa dinâmica, oferecendo novas possibilidades aos pilotos. Em determinados contextos, modo boost, combinado com o modo de ultrapassagem, pode se tornar decididamente mais eficaz do que o antigo DRS, gerando diferenças de velocidade significativas, mesmo acima de 30-40 km/h. Isso muda o foco para a interpretação da gestão de energia, quase uma ciência aplicada à estratégia de corrida.
Esses aspectos também ficaram evidentes no duelo entre Charles Leclerc e George Russell pelo terceiro lugar, com o monegasco capaz de repelir todas as tentativas do britânico e conquistar o segundo pódio da temporada bem à frente dos grandes favoritos. Na verdade, o piloto da Ferrari já havia se mostrado um adversário difícil para Andrea Kimi Antonelli na primeira parte da corrida, dificultando a ultrapassagem.
Charles Leclerc, Ferrari
Foto: Ferrari
“Foi difícil ultrapassar Charles porque ele usava a bateria em pontos estratégicos, nos pontos mais críticos onde era possível ultrapassar. Tive muita dificuldade atrás dele”, contou Antonelli após a corrida, destacando que, para as duas Mercedes, ultrapassar as Ferraris não foi tão fácil. Essa dinâmica já havia sido vista nos primeiros GPs, onde muitas vezes os pilotos da Scuderia incomodaram os dois W17, mas acabavam 'cedendo' mais tarde, sem conseguir acompanhar verdadeiramente os titulares da equipe alemã.
Leclerc já havia dito isso na China: para vencer as Mercedes, é preciso responder golpe a golpe, porque, em pista livre, os W17, especialmente quando entra em jogo a gestão dos pneus, mantêm uma vantagem evidente sobre a concorrência, como também se viu em Suzuka com Antonelli. E foi exatamente isso que o monegasco fez no Japão, aproveitando também uma configuração do traçado que, em certos momentos, permitiu que ele se defendesse com maior eficácia.
Para quem atacava, a melhor escolha mais era geralmente usar a energia entre a Spoon e a última chicane, pois nesse trecho atinge-se uma velocidade sensivelmente mais elevada, enquanto quem está na frente tende a sofrer uma queda mais acentuada no momento em que o MGU-K interrompe o suporte, facilitando a aproximação. A questão, porém, é que em Suzuka há nada menos que três retas consecutivas e a gestão da energia se torna uma estratégia.
Charles Leclerc, Ferrari
Foto de: Toshifumi Kitamura / AFP via Getty Images
Se usar energia demais antes da última chicane, mesmo conseguindo completar a ultrapassagem, o risco concreto é chegar à reta seguinte com bateria insuficiente para se defender. Uma dinâmica incentivada pelos novos regulamentos, a ponto de, antes da curva 1, serem registradas diferenças de velocidade de cerca de 30 km/h, facilitando a ultrapassagem e o contra-ataque, mais do que o antigo DRS.
E é justamente aqui que surge a 'esperteza' estratégica de Leclerc e da Ferrari no uso da energia, derrotando a Mercedes. O objetivo não era mais otimizar o tempo de volta, como na classificação, mas entender onde realmente valia a pena gastar a bateria para dificultar quem vem atrás. Analisando os dados, nota-se uma profunda diferença na interpretação em relação à Mercedes.
A Ferrari tendia a utilizar mais energia na saída da curva em S para acelerar em direção à Spoon, para depois entrar de forma mais agressiva no superclipping antes da curva 13, antecipando-se à Mercedes. O mesmo esquema se repetia na saída da Spoon, onde Leclerc conseguia ser muito mais incisivo na fase de saída, também graças a uma interpretação ligeiramente diferente daquele trecho. Uma lógica confirmada também por Antonelli na conversa com os outros pilotos no pódio.
Em essência, a Ferrari ganhava na reta, criando imediatamente uma pequena vantagem na primeira parte da reta e forçando a Mercedes a gastar mais energia na segunda metade para se aproximar e, se possível, tentar o ataque, salvo para depois ter que entrar no superclipping antes da chicane. Esse efeito ioiô garantia uma certa margem de flexibilidade na defesa, também porque permitia a Leclerc recuperar energia a tempo de se proteger na reta de saída.
Confronto Leclerc - Russell Volta 48 Suzuka
Foto de: Gianluca D'Alessandro
Há, porém, outro elemento a ser considerado. Pela forma como os regulamentos estão redigidos, quando se está no modo de ultrapassagem e se usa o boost, mesmo que se levante o pé antes da curva 130R, como fez, por exemplo, Lando Norris na ultrapassagem sobre Lewis Hamilton no final da corrida. Quando se volta a pisar no acelerador por questões regulamentares, a ativação do boost continua, limitando a liberdade de modulação por parte do piloto.
Em certos casos, a ultrapassagem torna-se quase “forçada”. Em parte, foi o que aconteceu com Russell na volta 50, quando ultrapassou Leclerc na última chicane enquanto o monegasco estava em superclipping. O problema é que, dessa forma, consome-se muita energia e corre-se o risco concreto de ficar sem bateria para se defender, facilitando a 'contra-ultrapassagem'.
Sem dúvida, algumas características da pista ajudaram, desde o traçado até a ausência substancial de graining e degradação no asfalto novo, em um circuito que, historicamente, como se viu também no ano passado, dificulta as ultrapassagens. Mas, para conseguir isso, também foi necessária astúcia estratégica. Falando após a corrida, Frederic Vasseur destacou a importância do pódio, sobretudo em termos de moral.
“Queremos conquistar mais, mas acho que foi uma pilotagem realmente muito forte da parte de Charles na reta final com Russell. Era importante para nós manter a Mercedes e Russell atrás de nós. Nas últimas dez voltas, ele também demonstrou isso a todos na fábrica e à equipe: podemos conseguir. Significa muito e é a melhor maneira de chegar a pausa”, disse o chefe da Ferrari.
FUTURO de VERSTAPPEN, integração com RED BULL, BORTOLETO, SEGURANÇA da F1 e mais | RAFAELA FERREIRA
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