F1 - Chefe da Ferrari: “Minha função é proteger a equipe, pedi aos pilotos que fizessem o mesmo”
Em entrevista exclusiva ao Motorsport.com, Fred Vasseur negou crise na Scuderia envolvendo Leclerc e Hamilton e que cargo dele estaria ameaçado
Em entrevista exclusiva ao Motorsport.com, Fred Vasseur, chefe de equipe da Ferrari, admitiu que havia questões a serem esclarecidas entre Charles Leclerc e Lewis Hamilton sobre o GP da Itália de Fórmula 1, mas rejeitou as especulações sobre uma crise interna, destacando que defende o time de Maranello e que a dupla de pilotos deveria fazer o mesmo.
O chefe da Scuderia conversou com os dois pilotos após Monza, abordando o que aconteceu na pista, bem como alguns dos comentários feitos ao longo do fim de semana. O que Vasseur rejeita, no entanto, é a proporção que a história assumiu, com o episódio se tornando, em questão de dias, evidência de uma suposta tensão dentro da equipe.
“Tivemos algumas boas reuniões com Lewis e Charles”, disse Vasseur ao Motorsport.com. “Eles esclareceram as coisas juntos, e eu os lembrei de alguns princípios fundamentais da maneira como gerencio a equipe. E continuarei a segui-los".
O argumento do comandante francês vai além do que aconteceu em Monza. Vasseur quer que seus pilotos assumam sua parcela de responsabilidade pela proteção do trabalho da equipe, da mesma forma que ele diz fazer sempre que algo dá errado.
Lewis Hamilton, Ferrari
Foto de: Simon Galloway / LAT Images via Getty Images
“Lembrei ao Lewis que, quando vencemos a corrida em Melbourne há dois anos graças à estratégia, mandei o Ravin Jain subir ao pódio porque era justo que ele recebesse o reconhecimento. Quando perdemos uma corrida por causa da estratégia, fui diante das câmeras de TV e assumi a responsabilidade".
“Meu trabalho é proteger as centenas de pessoas da equipe e assumir a responsabilidade. É isso que pedi aos pilotos que façam também: se queremos alcançar resultados, precisamos proteger a equipe e cada um de nós precisa assumir a responsabilidade".
Não se trata de um pedido de silêncio. Vasseur não está pedindo que Leclerc e Hamilton deixem de fazer críticas, mas ressalta que um comentário feito diante da mídia pode ter muito mais peso do que a pessoa que o fez talvez pretendesse.
“Não estou pedindo que eles não sejam sinceros ou que não sejam contundentes. Mas, muitas vezes, eles são bem mais calmos conosco do que quando vão falar com a imprensa".
"Lewis me disse: ‘Fred, 80% da minha mensagem foi positiva e eles pegaram os 20% que eram negativos'. Mas todos sabemos como isso funciona. Se você diz que a equipe está fazendo um bom trabalho e depois acrescenta um ‘mas’, essa é a parte que vai virar manchete. Faz parte do jogo".
É aqui que Vasseur relaciona a questão com a narrativa que, em sua opinião, se desenvolveu após Monza. Os dois pilotos da Ferrari quase se chocaram, Hamilton foi agressivo e Leclerc, posteriormente, admitiu seu próprio erro.
Mas o que começou como um incidente na pista rapidamente se transformou em questionamentos sobre a gestão dos pilotos e até mesmo sobre a estabilidade da liderança da Scuderia.
Charles Leclerc, Ferrari, Lewis Hamilton, Ferrari
Foto de: Simon Galloway / LAT Images via Getty Images
“Charles, após a discussão, disse: ‘Fui agressivo demais'. E, para mim, tudo bem. Quando Kimi estava disputando com Russell, ele acabou na brita, assim como Lewis fez na largada. Mas, no nosso caso, passamos muito rapidamente de um incidente na pista para discutir uma crise na forma como os pilotos estão sendo gerenciados. Acho que as duas coisas precisam ser vistas na perspectiva correta".
Sobre o tema das “regras de conduta”, Vasseur também rejeitou a ideia de que a Ferrari não tenha um marco que regule como seus pilotos competem entre si. Não existe um código capaz de abranger cada centímetro de uma disputa na pista, mas há princípios e responsabilidades claros.
“Dizer que não há ‘regras de conduta’ não reflete a realidade. Não dá para esperar que os contratos abranjam todos os cenários possíveis que possam surgir na pista, porque, inevitavelmente, tudo se tornaria uma questão de interpretação. ‘Eu estava lá’, ‘não, você estava cinco centímetros mais atrás’ — não se resolve nada dessa forma. Os princípios são claros e os pilotos os conhecem".
A filosofia da Ferrari permanece inalterada: dois pilotos titulares e tratamento igualitário. Uma hierarquia pode eventualmente ser estabelecida quando a classificação do campeonato deixar claro que um dos dois não tem mais chances reais, mas não antes disso.
“Os pilotos da Ferrari podem contar com tratamento igualitário; então, pode chegar um momento em que tenhamos que tomar uma decisão se um deles estiver fora da disputa. Nesse caso, a decisão será minha. Mas, até esse momento, o tratamento será igualitário".
Vasseur citou 2025 como exemplo, quando Piastri chegou a Monza com uma vantagem de mais de 30 pontos sobre Norris, e a McLaren pediu a Oscar, durante a corrida, que cedesse o segundo lugar a Lando. Se a McLaren tivesse tomado uma decisão mais cedo de apoiar um único piloto, quem sabe como o campeonato poderia ter terminado.
“Imagine se a McLaren tivesse decidido apostar tudo em Piastri: talvez Verstappen, que terminou três pontos atrás de Norris, pudesse ter se tornado campeão. Foi isso que eu disse aos nossos pilotos. Tomaremos uma decisão quando estivermos mais perto do final, por que não? Mas hoje nem há o que discutir".
Lewis Hamilton, Ferrari
Foto de: Manuel Eletto / Getty Images
Outro ponto levantado por Vasseur diz respeito à avaliação técnica da Ferrari. O motor com o segundo uso do ADUO em Monza tem sido, em alguns setores, retratado como uma atualização que não conseguiu entregar os resultados esperados. O chefe de equipe acredita que essa conclusão está errada, pois não leva em conta como a potência do motor afeta de maneira diferente o tempo de volta de um circuito para outro.
“Sei que é difícil entender à primeira vista, mas qualquer pessoa com algum conhecimento técnico sabe exatamente do que estou falando", continuou Vasseur.
"Vou dar um exemplo: em um circuito como Zandvoort, um déficit de potência de X cavalos pode custar três décimos. Se melhorarmos o desempenho desse motor a ponto de reduzir o déficit de potência em um terço e, em seguida, formos para um circuito como Monza, podemos descobrir que a diferença no tempo de volta em relação aos nossos rivais, em vez de diminuir… aumenta".
“Isso não significa que o ADUO não esteja funcionando. Mesmo que você dê um salto adiante de vários cavalos de potência, em Monza você ainda pode ficar mais distante da referência do que estava em Zandvoort".
Por trás dos números, há acima de tudo uma questão que Vasseur considera importante: o respeito pelo trabalho que está sendo feito em Maranello. “Quando leio que ‘o ADUO não está funcionando’, acho isso desrespeitoso com as pessoas que trabalham no motor, porque não reflete a realidade".
O francês sabe que estar à frente da Ferrari significa viver permanentemente sob um microscópio. Especulações sobre seu futuro ressurgem periodicamente, assim como aconteceu no ano passado, quando circulavam rumores de uma possível saída, embora a prorrogação de seu contrato já tivesse sido acordada.
“Alguém diz que vou ser demitido neste fim de semana, ou que fui demitido ontem à noite. Ganhamos duas corridas, podemos ganhar mais e temos uma ideia clara de como dar mais passos à frente. É nisso que estou concentrando minha energia. Estar sob pressão faz parte do meu trabalho. Não é algo em que eu queira desperdiçar energia".
Questionado se às vezes se sente “sozinho” em seu cargo, Vasseur rejeitou categoricamente a sugestão: “Em primeiro lugar, não cabe a mim destacar se tenho ou não o apoio do presidente, mas o canal de comunicação está constantemente aberto e é construtivo".
"Além disso, em quase todos os fins de semana de corrida, tivemos representantes da alta administração de Maranello conosco, desde John Elkann até Benedetto Vigna e Piero Ferrari. Acho que isso é um sinal realmente positivo para todos que trabalham na equipe, tanto na pista quanto em Maranello".
A pressão, no entanto, permanece. E Vasseur parece não ter intenção de tentar fugir dela. Ela faz parte do cargo, especialmente quando esse cargo é liderar a Ferrari. O que ele pede é que as críticas continuem sendo críticas e que um incidente de corrida continue sendo um incidente de corrida, em vez de cada episódio ser transformado em um sintoma de uma crise mais ampla.
KIMI já começou a ser FAVORECIDO vs GEORGE a partir de Monza? Lewis TEM RAZÃO sobre LECLERC/Ferrari?
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