F1 - Clark, Senna, Antonelli: Como o recorde de mais jovem a conquistar um Grand Chelem evoluiu
Italiano da Mercedes se tornou o mais jovem da história a conseguir um dos feitos mais difíceis da categoria
Ao longo da história da Fórmula 1, nomes como Jim Clark, Ayrton Senna e Max Verstappen já deixaram sua marca entre os pilotos mais jovens a conquistar um grand chelem - pole position, liderança de todas as voltas e volta mais rápida. Em 2026, Kimi Antonelli se juntou a essa lista.
Agora, o Motorsport.com faz uma retrospectiva dos pilotos mais jovens a conquistarem tal feito ao longo dos anos.
Juan Manuel Fangio – 38a, 10m, 27d
GP de Mônaco de 1950
O primeiro grand chelem da história aconteceu já na segunda corrida da primeira temporada da F1.
O futuro pentacampeão Juan Manuel Fangio foi o mais rápido por 2,6s na classificação e, na corrida, passou pela curva Tabac logo antes de uma onda vinda do porto encharcar a pista, o que eliminou a maior parte do pelotão, incluindo os outros quatro pilotos que largaram entre os cinco primeiros.
“Tive muita sorte,” disse Fangio à Autosport, publicação irmã do Motorsport.com, negando sugestões de que pudesse ter um ‘sexto sentido’. “Houve um incidente semelhante em 1936 e por acaso vi uma fotografia dele no dia anterior à corrida".
"Quando saí da chicane, percebi que havia algo diferente com a multidão. Eu estava liderando mas eles não estavam olhando para mim. Olhavam para a pista mais adiante. Em vez de ver seus rostos, eu estava vendo a parte de trás de suas cabeças. Algo em Tabac era mais interessante do que o líder. Então me lembrei daquela fotografia e parei o mais rápido que pude. Foi por muito pouco".
Fangio acabou dando uma volta em todos os seus rivais. Esta não foi sua pilotagem mais fantástica, mas ainda assim entrou para a história.
Alberto Ascari – 33a, 11m, 23d
GP da França de 1952, Rouen-les-Essarts
Alberto Ascari, Ferrari 500
Photo by: LAT Images via Getty Images
Nenhum outro grand chelem foi alcançado até Alberto Ascari e a Ferrari dominarem as temporadas de 1952 e 1953, disputadas sob regulamento de F2, com sua supremacia rendendo cinco grand chelems em apenas 14 corridas.
O primeiro deles foi o GP da França inaugural, sediado em Rouen, em 1952. Ascari completou a volta na pista de 5,1km em 2m14,8s, superando seus companheiros de Ferrari Giuseppe Farina e Piero Taruffi por 1,4s e 2,3s, respectivamente.
Ascari completou a corrida de 388km sem pitstops e nem mesmo uma pancada de chuva conseguiu impedir seu domínio. Ele recebeu a bandeira quadriculada 1m10,7s à frente de Farina, com Taruffi uma volta atrás e todos os demais ainda mais distantes.
Mike Hawthorn – 29a, 2m, 26d
GP da França de 1958, Reims
Mike Hawthorn, Ferrari Dino 246
Photo by: LAT Images via Getty Images
O próximo piloto a entrar para o grupo dos grand chelems foi Mike Hawthorn, o primeiro a alcançar o feito ainda na casa dos 20 anos.
O veterano da Ferrari vinha sendo presença constante entre os três primeiros nos anos anteriores – tornou-se o mais jovem piloto a subir ao pódio na F1 com 23 anos, no GP da Grã-Bretanha de 1952, com um Cooper inscrito de forma privada. Mas o GP da França de 1958 marcou apenas sua terceira (e última) vitória.
Único piloto a ter pontuado em todas as corridas até então naquela temporada, Hawthorn estava atrás do bicampeão Stirling Moss na classificação, mas conquistou a pole position em Reims, liderando o companheiro de Ferrari e rival Luigi Musso por sete décimos, com Moss dois segundos atrás em sexto.
Musso perseguiu Hawthorn no início, mas saiu da pista na volta 10. Três semanas depois de sobreviver a um forte acidente em Spa-Francorchamps, o italiano de 33 anos foi arremessado para fora de sua Ferrari em um capotamento e morreu algumas horas depois.
Hawthorn venceu sem ser desafiado, 24,6s à frente de Moss, naquela que acabou sendo sua última vitória na F1. Ele foi coroado campeão mundial por pequena margem, graças ao fair play de Moss, já que este defendeu Hawthorn quando ele enfrentava a desclassificação do GP de Portugal.
Hawthorn anunciou sua aposentadoria após conquistar o título e sofreu um acidente rodoviário fatal apenas três meses depois. Ele tinha 29 anos.
Jim Clark – 26a, 4m, 17d
GP da Grã-Bretanha de 1962, Aintree
Jim Clark, Lotus 25 Climax
Photo by: Autocar / LAT Images via Getty Images
Em 1962, a Lotus apresentou seu extremamente bem-sucedido Lotus 25 – vencedor de 14 GPa – e Jim Clark provou que conseguia extrair o máximo dele.
Com apenas 26 anos, Clark tornou-se um candidato real ao título naquele ano, mas problemas mecânicos o tiraram da disputa em três das quatro primeiras etapas, enquanto ele conquistou sua primeira vitória em Spa-Francorchamps, largando em 12º.
Em Aintree, porém, Clark conquistou a terceira pole de sua carreira, do que viria a ser um recorde de 33, superando John Surtees por 0,6s, e liderou a Lola inscrita pela Bowmaker de seu compatriota durante toda a corrida. Ele abriu vantagem aos poucos, mas com conforto, e venceu por 49,2s.
Clark pode ter conquistado apenas dois títulos mundiais, já que a falta de confiabilidade lhe custou caro em 1962, 1964 e 1967, mas alcançou oito grand chelems – um recorde até hoje – antes de sua morte prematura em uma corrida de F2 em Hockenheim, em abril de 1968.
Ayrton Senna – 25a, 1m
GP de Portugal de 1985, Estoril
Ayrton Senna, Lotus 97T Renault
Photo by: LAT Images via Getty Images
Nada menos que 10 pilotos marcaram grands chelems ao longo dos 23 anos seguintes, mas apenas o surgimento de Ayrton Senna ofereceu uma oportunidade de bater o recorde de ‘mais jovem’.
Senna juntou-se à Lotus para aquela que era apenas sua segunda temporada na F1, após uma campanha de estreia impressionante com a Toleman. Em Jacarepaguá, classificou-se em quarto e corria em terceiro até uma falha elétrica o tirar da prova.
Em Estoril, o brasileiro de 25 anos conquistou uma pole position dominante em condições de pista seca, a primeira de um recorde de 65, 0,413s mais rápido que Alain Prost, da McLaren. A chuva causou estragos na corrida, com apenas nove dos 26 participantes classificados sob a bandeira quadriculada.
Senna estava 2,65s à frente do companheiro de equipe Elio de Angelis após a primeira volta, 12,9s à frente na volta 10, e continuou abrindo vantagem para triunfar 63 segundos à frente de Michele Alboreto, da Ferrari. A comemoração que compartilhou com o chefe de equipe da Lotus, Peter Warr, está gravada na história da F1.
Photo by: Motorsport Images
“O carro escorregava por todos os lados, era muito difícil mantê-lo sob controle,” comentou Senna depois. “Muitas vezes você via carros deslizando por todo lado simplesmente por falta de aderência e excesso de potência. O único problema [que tive] com o carro foram os freios, mas nessas condições você espera isso".
“Quando você ficava perto de alguém não conseguia ver nada. As pessoas acham que não cometi erros, mas isso não é verdade. Não faço ideia de quantas vezes saí da pista! Uma vez tive as quatro rodas na grama, totalmente fora de controle, e o carro voltou para o circuito. Todos disseram ‘Controle de carro fantástico’, mas foi apenas sorte".
E quando, anos depois, sugeriram que sua aula magistral em Donington em 1993 havia sido sua melhor pilotagem, Senna discordou: “De jeito nenhum! Eu tinha controle de tração".
“OK, não cometi nenhum erro de verdade [em Donington], mas o carro era muito mais fácil de guiar. Foi uma boa vitória, claro, mas comparado a Estoril em 1985 não foi nada, de verdade!”
Sebastian Vettel – 24a, 3m, 27d
GP da Índia de 2011, Buddh
Sebastian Vettel, Red Bull Racing RB7 Renault
Photo by: Andrew Ferraro / LAT Images via Getty Images
Ao contrário de todos os outros pilotos desta lista, Sebastian Vettel já era campeão mundial quando conquistou seu primeiro grand chelem.
O prodígio da Red Bull havia chegado perto várias vezes, incluindo no GP da Grã-Bretanha de 2009 – onde perdeu temporariamente a liderança para o companheiro de equipe Mark Webber ao parar nos boxes três voltas antes – e no GP da Europa de 2011, onde trocou pneus uma volta antes de Felipe Massa e, portanto, cedeu o primeiro lugar por um breve instante.
Houve também o GP do Japão de 2009, que ele liderou da pole à vitória, mas Webber tirou dele a volta mais rápida por 0,003s.
Ainda assim, Vettel finalmente juntou tudo na visita inaugural da F1 à Índia. Ele liderou a classificação por uma folgada margem de 0,296s sobre Lewis Hamilton, superou Webber por 0,271s na volta mais rápida e abriu 4,8s de vantagem sobre Jenson Button nas primeiras 10 voltas, mantendo aproximadamente essa diferença rumo a uma vitória por 8,4s.
Mas a Red Bull não ficou empolgada com as façanhas de volta mais rápida de Vettel. Sobre se seu piloto havia pedido permissão para completar o grand chelem, o chefe de equipe Christian Horner disse: “Claro que não, porque ele sabe que não gostamos disso. Fizemos o nosso melhor para gerenciar, baixamos todos os modos do motor, desligamos o sistema de recuperação de energia cinética, e, fora colocar uma vaca no circuito, não havia muito mais que pudéssemos fazer".
Naquele dia, Vettel também quebrou o recorde de Nigel Mansell de mais voltas lideradas em uma temporada – 739 ao fim da temporada de 2011 contra 694 do ícone britânico em 1992, embora a taxa de aproveitamento de Mansell fosse maior e Max Verstappen tenha destruído esse recorde em 2023.
Max Verstappen – 23a, 9m, 4d
GP da Áustria de 2021, Red Bull Ring
Max Verstappen, Red Bull Racing
Photo by: Jure Makovec / SOPA Images / LightRocket via Getty Images
Pode parecer um tanto curioso que Verstappen tenha se tornado o mais jovem a conseguir um grand chelem da F1 na 128ª tentativa – tantas corridas quanto Fangio, Ascari e Hawthorn disputaram somados – mas isso é apenas reflexo do fato de que ele estreou aos 17 anos e nunca teve de fato o carro mais rápido antes de 2021.
Para ser justo, Verstappen merecia o grand chelem em no GP de Abu Dhabi de 2020: ele liderou a corrida inteira a partir da pole, mas um pit stop tardio de Daniel Ricciardo, da Renault, numa época em que a volta mais rápida valia um ponto, negou-lhe essa honraria.
Quando a F1 chegou ao território da Red Bull em 2021, Verstappen liderava confortavelmente o campeonato de pilotos, com Hamilton 32 pontos atrás.
O holandês bateu a surpreendente McLaren de Lando Norris pela pole por 0,048s, com uma volta que classificou como “muito ruim”. Na corrida, abriu vantagem facilmente assim que um safety car inicial saiu do caminho. Venceu por 18 segundos sobre Valtteri Bottas, da Mercedes, estabelecendo a volta mais rápida por impressionantes 1,562s sobre seus rivais mais próximos, graças ao pit stop mais tardio de todos. Mas mesmo antes disso ele já era o mais rápido.
“Incrível, para ser honesto,” comentou Verstappen. “O carro estava perfeito. Quero dizer, em cada jogo de pneus que colocávamos, era realmente prazeroso de guiar. Bem insano. Eu mesmo estou um pouco surpreso com como o dia foi. Não esperava que fosse assim".
Kimi Antonelli – 19a, 9m, 3d
GP de Mônaco de 2026
Andrea Kimi Antonelli, Mercedes
Photo by: Alastair Staley / LAT Images via Getty Images
Jovem promessa da Mercedes, Kimi Antonelli baixou o recorde de grand chelem para menos de 20 anos de idade, marca que dificilmente será superada tão cedo.
Depois de uma temporada de estreia complicada, Antonelli desfruta de um equipamento mais dominante em 2026 e ele próprio tem sido muito mais completo como piloto.
O italiano de 19 anos chegou muito perto de um grand chelem na China este ano, ao conquistar sua primeira pole por 0,222s e a volta mais rápida por 0,125s sobre o companheiro de equipe George Russell, mas a Ferrari de Lewis Hamilton, que largou rápido, privou-o da liderança na primeira volta.
Em Mônaco, porém, Antonelli superou Verstappen por 0,043s na pole – uma “volta mágica”, disse o piloto – e liderou uma corrida caótica do início ao fim. Abriu uma vantagem de 29 segundos para Hamilton e então sobreviveu a uma bandeira vermelha tardia e a uma largada parada para prevalecer também no sprint de oito voltas.
“Fiquei surpreso com o ritmo, mas hoje eu me senti realmente em sintonia com o carro e consegui estabelecer um bom ritmo com alta intensidade, e o carro respondia muito bem,” comentou Antonelli. “Então, sim, definitivamente fiquei surpreso, mas foi simplesmente um daqueles dias em que tudo se encaixa".
Sobre a bandeira vermelha, ele acrescentou: “Fiquei muito frustrado, porque Lewis estava largando ao meu lado desta vez e, sabendo como eles largam bem, eu fiquei: ‘Ah, cara.’ Mas, felizmente, a largada foi OK. Além disso, ele deslizou, então isso também tornou minha vida um pouco mais fácil na Curva 1”.
Andrea Kimi Antonelli, Mercedes
Photo by: Alex Bierens de Haan / LAT Images via Getty Images
O mais jovem poleman de todos os tempos, autor de volta mais rápida, líder de corrida e de campeonato, realizador de hat-trick e grand chelem, agora está no caminho para se tornar o mais jovem campeão mundial da F1 em 2026, potencialmente batendo o recorde de Vettel (23a, 4m, 11d) por mais de três anos.
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