F1: Como 'melhor chassi' da temporada fracassou no GP da Hungria
Carro “inconsistente” ou falha de execução? Opiniões divergem mesmo entre a equipe e os pilotos
Os rivais afirmam que a Ferrari tem o chassi mais ágil da Fórmula 1, se não o melhor motor ou aerodinâmica e, por isso, esperam que a Scuderia brilhe em circuitos com protagonismo das curvas lentas, onde a velocidade em reta não é tão valiosa. Porém, tanto Lewis Hamilton quanto Charles Leclerc ficaram sem a pole position no sábado e fora do pódio no domingo na Hungria.
Leclerc foi o mais rápido no TL1 na sexta-feira, antes de Hamilton liderar uma dobradinha no TL2. Mas, no TL3 e na classificação, os dois foram superados por Lando Norris, que acabou vencendo a corrida no domingo.
Chefe de equipe da McLaren, Andrea Stella, afirmou que Norris “superou as expectativas” ao conseguir a pole na classificação, pois o chassi do time inglês ainda não estava ao nível do da Ferrari. Então, como o carro que, teoricamente, deveria ter sido o mais forte no Hungaroring, dada a posição em pista, não conseguiu chegar ao pódio?
Hamilton foi quem mais se aproximou na sessão de classificação e na corrida, ficando a apenas 0.012s da pole position, mas foi penalizado em três posições por atrapalhar Oscar Piastri no Q3. O heptacampeão largou como P5, utilizando pneus macios, e não conseguiu ultrapassar Max Verstappen na primeira volta, fato que comprometeu toda a prova do britânico.
Depois um undercut tardio para tentar superar o holandês, o heptacampeão foi instruído a parar durante um safety car virtual, mas a decisão lhe custou não só a posição do tetracampeão, como também a de Kimi Antonelli, pois os pneus macios usados que foram colocados não lhe permitiram a ultrapassagem. Além disso, Hamilton ainda foi punido em cinco segundos por excesso de velocidade no pit lane, caindo para a quinta colocação após a bandeirada.
Já para Leclerc, que se classificou a dois décimos de Hamilton, “o ritmo nunca esteve ao nível do Lewis” no sábado. O monegasco largou como P2, também com pneus macios, mas perdeu espaço para Piastri, Verstappen e Hamilton na primeira volta, com dificuldades durante toda a prova.
Charles Leclerc, Ferrari, Lewis Hamilton, Ferrari
Photo by: Dom Gibbons / Formula 1 via Getty Images
“O que se destaca para mim é que, nas últimas três corridas, houve duas em que esperávamos ter dificuldades e terminamos em primeiro e segundo,” disse Leclerc após a prova húngara. “E na corrida em que esperávamos ir bem, terminamos em quarto e quinto".
"Então, claramente existe uma tendência — e não é que um carro esteja indo bem porque ele [Hamilton] esteja fazendo algo excepcional com o carro. Os dois carros parecem ter essa tendência de serem competitivos nos fins de semana em que esperávamos sofrer, mas enfrentarem dificuldades justamente quando achávamos que seríamos fortes. Então, precisamos entender o motivo disso", continuou.
Porém, Leclerc ainda reconheceu que "também é verdade que, com uma boa largada, as coisas poderiam ter sido muito diferentes. Porque, numa pista como esta, não há muitas ultrapassagens".
Há definitivamente falhas de execução, como o chefe Fred Vasseur apontou após a corrida. Nem Leclerc nem Hamilton tinham um jogo novo de médios disponível para a corrida, pois o utilizaram na classificação, mas eles já não estavam muito satisfeitos com o comportamento do carro nesse composto durante o fim de semana.
Charles Leclerc, Ferrari
Photo by: Artur Widak / NurPhoto via Getty Images
O alto desagaste de pneus é uma fraqueza famosa do atual carro da Ferrari e, por isso, era de se esperar que o ritmo de corrida pudesse ser um problema ao largar com o composto macio, especialmente em uma temperatura ambiente de 31°C. Para efeito de comparação: todos os outros pilotos da frente do pelotão utilizavam médios.
Porém, a Pirelli já havia assinalado na sexta-feira que os compostos macios estavam indo bem, previsão que se concretizou no domingo. Um exemplo disso foi o último stint de Verstappen na corrida, ficando com macios usados por 29 voltas.
Entretanto, além desta vulnerabilidade conhecida da Scuderia, a McLaren estava preocupada com a possibilidade de Hamilton aplicar um undercut em seus pilotos — enquanto ocupavam a primeira e a segunda posições — e, por isso, chamou Piastri para os boxes em resposta à primeira parada do britânico, no fim da volta 13, quando ele trocou para pneus duros.
Hamilton conseguiu fazer o undercut sobre Verstappen, mas voltou à pista atrás de Liam Lawson, da VCARB. Em seguida, o holandês aproveitou o momento em que o heptacamepão ultrapassava Lawson para retomar a posição.
Hamilton não só admitiu "não ter visto Max chegando", como também reconheceu que, a partir daquele momento, sua "corrida desandou".
A parada final nos boxes lhe custou posições na pista e esteve longe de ser perfeita. Hamilton travou os pneus ao entrar no pit lane e parou além da marca correta no box, o que atrasou a troca. Em seguida, desligou o limitador de velocidade uma fração de segundo antes do permitido.
"Não tenho a certeza do por quê paramos no fim. Recebi a chamada pouco antes da entrada do pitlane, então não tive tempo para discutir. Nunca teria parado se isso significasse que eu estava 'desistindo' de posição em pista", desabafou.
Vasseur enquadrou isso como um exemplo clássico de erros que se acumularam uns sobre os outros, uma previsão que muito provavelmente está correta. Porém, Hamilton já ganhou campeonatos mundiais suficientes para saber como executar corretamente um fim de semana de corrida.
As perguntas continuam sobre a aparente imprevisibilidade do próprio carro. É como se o SF-26 continuasse surpreendendo a equipe e os pilotos, enquanto Mercedes e McLaren – apesar da ocasional falha técnica – desfrutam de um nível de previsibilidade que lhes permite ser proativas, enquanto a Ferrari tem de ser reativa.
“Não fomos particularmente brilhantes em nenhum momento da corrida,” concluiu Leclerc. “O primeiro stint com duros [seu segundo na corrida] não foi ruim. O último, com macios, foi bastante bom. Mas depois houve altos e baixos demais e é realmente aí que precisamos de trabalhar. [O objetivo] é tentar encontrar essa consistência com este carro, porque tem sido muito complicado”.
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