F1: FIA admite erro com regras de 2026 mas culpa acordo com fabricantes por falta de mudanças
Diretor da FIA culpou a governança pelo cenário que deixou a entidade 'de mãos atadas'
Com a primeira metade da temporada 2026 da Fórmula 1 concluída, é hora de olhar para trás e entender tudo que passou até aqui. A principal categoria do automobilismo mundial viveu um turbilhão nos 11 GPs iniciais do campeonato, graças a um novo regulamento técnico que recebeu uma chuva de críticas dentro e fora do paddock desde antes da prova de abertura, na Austrália.
A F1 segue insistindo que as avaliações dos fãs - tiradas, por exemplo, de seu próprio programa "Formula 1 Fan Voice" - têm sido amplamente positivas, por mais que o CEO Stefano Domenicali tenha respondido a algumas críticas publicamente nas últimas semanas. Já os pilotos têm se mostrado mais contrários ao novo carro.
Max Verstappen descreveu as novas unidades de potência como “Fórmula E com esteróides” durante os testes de pré-temporada no Bahrein, enquanto Oscar Piastri falou em Spa sobre os “elementos de autoaprendizagem” das unidades de potência e sobre “os grids de largada serem decididos por computadores que se comportam bem ou mal”.
Questionado pelo Motorsport.com se as críticas dos pilotos nos últimos meses tinham sido mais fortes do que a FIA esperava, o diretor de monopostos da Federação, Nikolas Tombazis respondeu:
“Acho que os pilotos são, por definição, bastante exigentes. Não acho que esperássemos que eles amenizassem as coisas ou não dissessem o que pensam. Portanto, dizer que foi mais do que o esperado, não, eu não diria isso.”
As reclamações dos pilotos sobre gerenciamento de energia, superclipping e algoritmos também estavam de acordo com o que a FIA havia previsto, segundo seu diretor.
“Quero dizer, nós já havíamos previsto muitas dessas coisas das quais eles reclamaram nos dois anos anteriores ao início da temporada. Tentamos fazer alguns ajustes, mas não conseguimos com a estrutura de governança que estava em vigor. Portanto, acho que, realisticamente, isso era de se esperar".
Circuitos com escassez de energia, como Silverstone e Spa-Francorchamps, destacaram as deficiências do regulamento de 2026
Foto: Guido De Bortoli / LAT Images via Getty Images
FIA tentou ouvir as críticas dos pilotos antes de 2026
Se dependesse de Tombazis, as mudanças no regulamento que agora foram acordadas para 2027 e 2028 – para passar gradualmente para uma divisão de 60-40 entre a combustão e a potência elétrica – teriam sido introduzidas muito antes, em um mundo ideal.
“Acho que é uma pena termos tido que esperar até discutirmos as coisas em maio para chegarmos a um pacote para 2027 e 2028. Acho que, idealmente, poderíamos ter feito isso alguns anos antes e, assim, não teria havido toda essa discussão”, disse.
Vários pilotos alertaram sobre possíveis problemas com os novos regulamentos de motores antes de 2026. Verstappen foi o primeiro a fazê-lo publicamente durante o GP da Áustria de 2023, quando o Motorsport.com lhe perguntou sobre seus primeiros testes no simulador.
Isso talvez tenha criado a impressão de que os pilotos não foram ouvidos nos anos anteriores, mas Tombazis insiste que a realidade é diferente. Segundo ele, o feedback inicial foi levado a sério, mas a estrutura de governança impediu que os regulamentos fossem revisados de forma significativa.
“Quando as fabricantes (OEMs em inglês - sigla para Original Engine Manufacturers) decidem participar [da F1] como fabricantes de unidades de potência (PU), eles assinam um acordo de governança que é vinculativo para todas as partes, ou seja, a FIA, a FOM e as fabricantes. É semelhante ao Pacto de Concórdia para as equipes”.
“E houve um acordo de governança separado assinado em 2022 com o objetivo básico de definir os requisitos para as fabricantes de unidades de potência durante os anos de 2023, 2024 e 2025. Isso ocorreu antes do início do campeonato, pois havia, pela primeira vez, um regulamento financeiro".
A FIA afirma que a governança, mesmo com novos fabricantes como a Audi, tornou a intervenção impossível
Foto: Pirelli
Entre outras coisas, esse acordo estipulava que as participantes não teriam permissão para gastar quantias ilimitadas de dinheiro no desenvolvimento de suas unidades de potência para 2026.
“Se uma fabricante de motores não estivesse participando da Fórmula 1 [antes de 2026], a Audi por exemplo, ainda assim teria que estar sujeito aos regulamentos e não vir até nós dizer: ‘Bem, não estamos participando, portanto podemos gastar cinco vezes mais dinheiro’. Isso seria injusto".
“Então, foi por isso que houve um acordo que, por um lado, os obrigava a seguir os regulamentos, incluindo o teto de gastos, regulamentos operacionais e tudo mais".
Ao mesmo tempo, esse documento tornou muito mais difícil para a FIA reabrir o debate sobre os regulamentos nos anos que antecederam 2026, sem garantir uma maioria qualificada de votos.
“Ele [o acordo] impôs limitações quanto ao quanto poderíamos mudar as coisas unilateralmente como FIA. Com isso, qualquer mudança precisava ser aprovada por um número significativo de fabricantes. Para o tipo de mudanças que fizemos [em maio], precisávamos que pelo menos quatro delas concordassem. E, simplesmente, quatro deles não concordaram previamente, quando discutimos alguns ajustes".
Tombazis esperava que as mudanças para os próximos anos pudessem ter sido implementadas mais cedo
Foto: Lars Baron / Getty Images
Desafios conhecidos desde 2022, mas corridas seguem emocionantes
Parte da razão para esse impedimento era a realidade da indústria automotiva, que parecia ser muito diferente na época, com as fabricantes dando muito mais ênfase à eletrificação.
“No geral, sempre foi uma meta desafiadora ter uma divisão de potência próxima a 50-50 entre a combustão e elétrico”, disse Tombazis. “Mas essa era uma posição muito importante para as fabricantes participantes e, francamente, para a decisão de permanecerem ou não na F1".
"Não se esqueçam de que, se não tivéssemos [feito o regulamento de 2026], teríamos apenas duas unidades de potência na F1 [Ferrari e Mercedes, com as saídas de Honda e Renault], o que teria sido um problema. Portanto, essa exigência de ter uma parte elétrica muito mais potente realmente criou essas dificuldades".
Tombazis explicou que a FIA já estava ciente desses desafios em 2022, um ano antes de Verstappen expressar publicamente suas preocupações, mas, naquela altura, já era simplesmente tarde demais para alterar os regulamentos de forma mais profunda.
“À medida que as simulações foram surgindo, em 2022, sabíamos que esses problemas estavam ali, mas já estávamos um pouco avançados demais no processo para mudar as coisas, e algumas marcas já haviam investido muitos recursos. Então, isso nos deixou um pouco em desvantagem no início da caminhada".
Tombazis concluiu enfatizando que, apesar de tudo isso, as corridas em si ainda proporcionaram bom entretenimento durante a primeira metade da temporada.
“Dito isso, acho que a maioria das corridas tem sido bastante emocionante, eu diria. Tem havido bastante disputa. "E eu diria que ainda temos — não sei se chegaria ao ponto de chamar isso de domínio —, mas uma vantagem clara para uma marca. E, no passado, quando tivemos isso logo no início do regulamento, as corridas foram muito monótonas".
“Agora, acho que, mesmo apesar do fato de a Mercedes ter conquistado a maioria das vitórias, as corridas têm sido bastante emocionantes, com muitas reviravoltas e assim por diante".
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