"Não há igual’': Por dentro da Monumental, a curva mais ambiciosa do novo circuito da F1
Enquanto Madring, ainda em construção, abriu as suas portas a meios de comunicação selecionados, explorámos o mais recente palco da Fórmula 1
Apresentando um plano ambicioso que promete cumprir as metas da Fórmula 1 para uma corrida divertida, acessível e sustentável, Madrid ganhou o direito de assumir o GP da Espanha por um período de 10 anos, realizado no recinto de feiras IFEMA junto ao aeroporto internacional de Barajas.
A menos de três meses da estreia da categoria no chamado Madring, 45 anos depois de a capital espanhola ter recebido pela última vez uma corrida de F1 em Jarama, os organizadores do circuito abriram as portas para uma cerimônia de abertura glamorosa, com 'figurões' regionais e o embaixador da corrida, o piloto da Williams, Carlos Sainz.
O evento foi também uma oportunidade para alguns meios de comunicação bisbilhotarem o canteiro de obras de 5,4 km e terem um primeiro vislumbre do que os 22 pilotos irão experienciar em setembro. De capacete e colete de alta visibilidade, fomos encaminhados para um ônibus para explorar o mais recente local da F1, um alívio bem-vindo do calo de Madrid numa tarde escaldante de verão.
O que os organizadores perceberam é que qualquer circuito de Fórmula 1 precisa ter uma característica marcante. Em Madrid, ele surge na forma da espetacular Monumental, um trecho inclinado com o limite máximo permitido de 24% de inclinação. Com 550 metros de extensão, a seção é muito mais longa do que a curva final de Zandvoort, pois desenha um arco de 270 graus ao redor da extremidade norte do traçado, construído especialmente para recebê-la.
The Monumental has the maximum permitted incline
Photo by: Filip Cleeren
A aceleração já parecia impressionante nos vídeos e nas imagens geradas, mas vê-la de perto realmente põe as coisas em perspetiva. O que ela não é, porém, é uma curva de inclinação constante e elevação uniforme, como se esperaria de um oval tradicional.
Em vez disso, é uma curva que muda constantemente, de forma gradual antes de passar por uma alteração significativa de elevação. A saída é em subida e, por isso, cega para os pilotos. Não vai haver nenhuma curva na F1 igual a esta.
"Provavelmente preciso de um simulador para dar as sensações exatas e detalhes de como será, mas já posso dizer que parece impressionante, porque vamos entrar nessa curva já a uma velocidade muito alta, cerca de 280km/h", disse Sainz.
"A minha sensação é que a curva vai ser [com pé no] fundo e vai criar uma oportunidade de ultrapassagem na próxima [curva a] esquerda apertada. A inclinação vai permitir, talvez, posicionar o carro mais acima ou mais abaixo se quiser pegar ar limpo, mas se ficar colado atrás do outro vai gerar bastante turbulência."
Sainz se mostrou satisfeito pelo fato dos organizadores, liderados pelo antigo empresário de Fernando Alonso, Luis Garcia Abad, terem encomendado um circuito que fosse apelativo para os pilotos. "O que pedi ao responsável do circuito de Madrid foi que fizesse um circuito com caráter, com carisma", disse Sainz, que também terá uma arquibancada própria no evento. "E para não cair na armadilha de fazer circuitos para os quais os pilotos não contribuíram muito."
Williams drivers Carlos Sainz is the event's ambassador. "What I asked the manager of the Madrid circuit was to make a circuit with character, with charisma."
Photo by: Madrid Grand Prix
Os organizadores apostaram fortemente em La Monumental como marca única da pista, encarregando o gabinete Pininfarina de desenhar os troféus na elegante forma da inclinação, que também figura no cartaz oficial do evento, revelado nessa terça-feira.
Combinando o melhor dos dois mundos
Mais do que a inclinação, o que chama a atenção é a velocidade do trecho construído especialmente para o circuito, responsável por 2,2 km do traçado total. Erguida em uma área árida que antes servia como espaço para festivais, essa seção permitiu aos projetistas abrir mais a pista e criar um trecho em que os atuais carros de Fórmula 1 possam explorar todo o seu potencial.
Quando descemos do ônibus novamente, a área que abrigará a fan zone ao lado da Monumental ainda era um terreno de areia ocupado por máquinas e veículos de construção. Mesmo assim, os organizadores garantem que esse é um dos espaços mais rápidos de serem finalizados antes do evento, marcado para setembro.
As duas passagens sobre a autoestrada separam a Arena Norte do complexo da IFEMA, que abriga a reta principal e os edifícios do paddock. Nessa parte do circuito, o traçado assume características mais típicas de uma pista urbana, com curvas de 90 graus e áreas de escape limitadas. Por outro lado, a longa reta entre as curvas 3 e 5 deve criar boas oportunidades de ultrapassagem antes da chicane apertada que vem na sequência.
The Madring will host its first F1 race in just three months
Photo by: Madrid Grand Prix
Não é o trecho mais empolgante, nem o mais bonito, do circuito, já que os carros passam por uma sequência de grandes pavilhões de concreto. Por isso, será necessário um trabalho cuidadoso de produção para tornar o setor final mais atraente na transmissão de TV.
Com o asfalto da pista já concluído, os trabalhos agora se concentram na construção do prédio dos boxes, que avançava durante a nossa visita, e na instalação das arquibancadas. Juntas, elas deverão acomodar cerca de 98 mil dos 110 mil espectadores previstos para a capacidade total do evento.
Longe da multidão do Madring
Por reunir dois setores com características bastante distintas, o traçado inevitavelmente passa uma sensação de desconexão em alguns momentos, mas isso não é necessariamente algo negativo. O Madring busca combinar o melhor dos dois mundos: o desafio de alta velocidade e alta carga aerodinâmica de um circuito permanente com a acessibilidade e a infraestrutura típicas de uma pista urbana.
"Nunca vi um circuito que tenha uma atmosfera urbana e que, de repente, após uma subida, se abra para uma área enorme, mais aberta e fluida. Essa combinação torna a pista realmente empolgante", afirmou Sainz.
Por questões logísticas, o circuito será dividido em duas áreas principais para o público. A maior parte das arquibancadas ficará na seção mais ampla e aberta do traçado, enquanto a região da reta principal concentrará as áreas de hospitalidade.
"É uma experiência mais tradicional na parte norte e uma experiência mais voltada para o público VIP na parte sul", explicou o COO da IFEMA, Carlos Jiménez, ao Motorsport.com. "Em termos de público, pouco mais de 60% ficará na área norte, com grandes fan zones e bastante espaço para atrações e entretenimento. Os outros quase 40% estarão na área sul, incluindo o Paddock Club e as demais áreas de hospitalidade."
Madring's opening sequence of corners is a tight left-right chicane.
Photo by: Filip Cleeren
Um dos principais diferenciais de Madrid, especialmente em comparação com Barcelona e outros circuitos permanentes tradicionais da Europa, é que todo o evento foi planejado em torno do transporte público. A região norte de Valdebebas será atendida por trens suburbanos, enquanto a área principal do paddock contará com uma estação de metrô praticamente na porta.
"São duas linhas muito rápidas, com poucas paradas, porque foram projetadas para ligar o aeroporto ao centro da cidade", explicou Jiménez. "A conectividade e a experiência de acesso ao circuito serão um diferencial. O desafio, por outro lado, é criar uma experiência tão completa dentro do autódromo que os fãs queiram passar o máximo de tempo possível no GP, em vez de seguir para o centro da cidade."
"A primeira coisa que fizemos foi realizar uma pesquisa", afirmou Abad ao Motorsport.com. "O que os nossos clientes e fãs procuram? Eles querem uma experiência segura, com fácil acesso, sem congestionamentos, em uma cidade agradável e com bom clima. Nosso trabalho tem sido atender a todas essas demandas e entregar a experiência Madrid."
"Estamos construindo uma pista de corrida dentro da cidade, mas ela não é um circuito de rua. Não é Singapura, é algo diferente. Do ponto de vista do desempenho, trata-se de um circuito muito rápido, com curvas de alta velocidade. Será uma pista bastante desafiadora tanto para os pilotos quanto para os carros."
"Haverá muitas lições no primeiro ano"
A trajetória do Madring até aqui esteve longe de ser tranquila. O projeto enfrentou diversos atrasos e ações judiciais movidas por grupos de moradores da região. Enquanto a presidente da Comunidade de Madrid, Isabel Díaz Ayuso, e outras autoridades acompanhavam o hasteamento de uma gigantesca bandeira da Espanha ao lado da Curva 3, ainda era possível ouvir os apitos de cerca de uma dúzia de manifestantes reunidos do outro lado da cerca, segurando cartazes com a mensagem: "Parem a Fórmula 1".
Questionado pelo Motorsport.com sobre como a corrida pode convencer os moradores mais críticos de que os benefícios superam os impactos causados pelo evento, Abad respondeu:
"Essa é uma pergunta importante. Estamos construindo um circuito que terá cerca de 14 horas de atividade por ano. Trata-se de um sacrifício relativamente pequeno, enquanto o valor dos imóveis ao redor já está aumentando significativamente. Novos hotéis estão sendo construídos. Mas, no fim das contas, o que é positivo na nossa sociedade é que todos são livres para expressar suas opiniões e defender aquilo em que acreditam. E nós estamos fazendo o mesmo."
Half of Madrid's circuit is built on an expansive plot of land, giving organisers freedom the design faster corners and large fan zones.
Photo by: Filip Cleeren
A experiência recente de outras corridas que estrearam no calendário da Fórmula 1 mostra que o primeiro ano costuma trazer desafios e contratempos. É justamente nesse ponto que a experiência da IFEMA como organizadora de eventos ganha importância. O complexo recebe mais de 100 grandes eventos por ano, algo que pode ser um diferencial na preparação para a estreia do GP de Madrid. Ainda assim, o COO Carlos Jiménez não acredita que tudo sairá perfeito logo na primeira edição.
"Obviamente, queremos proporcionar a melhor experiência possível, mas haverá muitas lições a aprender entre o primeiro e o segundo ano", admitiu. "Isso acontece em todos os lugares, e nós não seremos uma exceção. Sabemos disso. Tentamos ser honestos e humildes, mas também entendemos que essa é uma das nossas forças."
"O que procuramos fazer é garantir que todos, inclusive eu, compreendam como este evento funciona, porque se trata de algo muito particular. Mas, quando você visita vários grandes prêmios, começa a identificar padrões, percebe o que os promotores fazem muito bem e quais aspectos ainda precisam ser aprimorados. Por isso, acredito que vamos entregar uma boa experiência já no primeiro ano."
The Madring uses IFEMA's 200,000m2 area and its 13 pavilions.
Photo by: Filip Cleeren
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