EXCLUSIVO: Quartararo fala sobre últimas corridas com Yamaha e expectativa para estreia com Honda na MotoGP
Apesar de demonstrar publicamente sua insatisfação nas últimas semanas, Quartararo diz que relação com Yamaha não está tão deteriorada quanto parece
Enquanto a MotoGP 2026 ainda se encaminha para a parte final do campeonato, Fabio Quartararo já está focado em 2027, com a oportunidade que a chegada do novo regulamento oferece no momento em que fará sua estreia na Honda.
Nas últimas semanas, a relação entre o campeão de 2021 e a Yamaha vem atravessando um momento de muita tensão. Frustrado com a impossibilidade de competir mais à frente com a nova M1 de motor V4, Quartararo não vem poupando críticas à marca japonesa, e a decisão da Yamaha de não permitir que ele participasse do teste pós-GP da Áustria com os novos pneus Pirelli não ajudou.
O Motorsport.com conversou com exclusividade com Quartararo sobre o passado, o presente e o futuro de sua carreira.
Pergunta: Quando você olha para trás, o que acha que vai ficar na sua memória desses últimos dois anos na Yamaha?
Quartararo: A capacidade que tive de reagir depois de um 2024 que não foi nada fácil. Quando tivemos uma moto que andava melhor, sobretudo em uma volta lançada, e como eu soube reagir. Embora em algumas corridas não tenhamos obtido os resultados que queríamos, pelo menos pude comprovar novamente que ainda tinha velocidade.
P: O que prejudicou o clima entre as duas partes?
Q: Acho que se deve ao tempo que passamos lutando por posições que não eram as adequadas. Em 2021, você luta pelo Mundial; em 2022, você está lá, disputando, embora não consiga vencê-lo. Mas depois vêm três anos seguidos (2023, 2024 e 2025) em que realmente não lutamos pelo que queríamos. Surgiram momentos delicados e acho que tudo está muito relacionado a isso.
P: Não havia uma maneira um pouco menos incômoda de encerrar essa relação?
Q: É uma pergunta complicada. Acho que ambas as partes tentaram fazer o melhor possível. Há momentos tensos, mas o que aparece na imprensa é exagerado, e parece que as coisas estão muito piores. É claro que já houve fases melhores, mas também não dá para pensar que isso seja uma guerra. É como em um relacionamento amoroso: há momentos difíceis, mas isso é normal. Ainda temos três meses juntos e não é hora de brigas depois de termos passado oito anos juntos. Vamos encerrar da melhor maneira possível, e espero que, no futuro, possamos falar bem de tudo o que conquistamos.
P: Qual é o seu diagnóstico sobre o projeto em si? Quais são os pontos fracos ou problemas que impediram que avançássemos tanto quanto esperávamos?
Q: Este ano, o primeiro teste que fizemos em Barcelona me surpreendeu positivamente. Mas, depois disso, não conseguimos dar um passo à frente de maneira geral. Quando se lança uma moto nova, há muitas coisas a serem ajustadas, mas não conseguimos avançar em velocidade, na forma de guiar a moto, na aderência ou na potência. Para mim, é difícil fazer um diagnóstico exato; com certeza, na Yamaha, eles podem responder melhor do que eu a esses detalhes técnicos.
Fabio Quartararo, Yamaha Factory Racing
Foto de: Andreas Solaro / AFP via Getty Images
P: Você acha que foi uma questão de falta de recursos ou de investimento?
Q: Não sei qual é o orçamento da Yamaha. É como se você fosse ao médico e perguntasse ao paciente qual é o diagnóstico. O que eu quero são melhorias para conseguir resultados, que é para isso que estou aqui.
P: No ano que vem você vai para a Honda, os pneus Pirelli vão chegar e você terá poucos dias de testes para se adaptar à moto e aos pneus. Você fica preocupado em chegar à primeira corrida sem estar totalmente preparado?
Q: Na verdade, nos testes você pega o ‘feeling’, mas não posso dizer que vou chegar à primeira corrida com o objetivo de vencer; isso não seria correto. Talvez eu ande dois dias com a moto e me sinta incrivelmente bem, mas teremos que ir aprendendo nos primeiros GPs. Se eu me sentir pronto para disputar o pódio ou a vitória, vou em busca disso; mas não podemos pretender pular etapas tão rápido. Só porque vou para a Honda, a moto não vai ser automaticamente a melhor; teremos que trabalhar, ajustar e ir devagar. Devagar, mas rápido.
P: A Yamaha não vai permitir que você participe do teste na próxima segunda, na Áustria, então você não poderá andar com os pneus Pirelli. Você não acha que, até certo ponto, a postura da marca é lógica?
Q: Do meu ponto de vista, sim, é lógico. De outro, nem tanto. Mas prefiro não entrar em mais detalhes para não me meter em problemas. Talvez, se eu estivesse no lugar da Yamaha, tivesse feito o mesmo.
P: Você já pensou em como será essa primeira volta na pista com a Honda no teste de Valência? Fica nervoso só de pensar que talvez não corra como espera?
Q: Para ser sincero, todas as noites, quando vou dormir, penso em como será essa primeira volta com a Honda. Mas não só nesse treino em Valência. Vai ser um pouco estranho, porque passei toda a minha carreira na Yamaha e é uma mudança muito grande. Não é pânico, e sim ansiedade, nervosismo. Mas, se tomei a decisão de ir para lá, é para dar tudo de mim.
Fabio Quartararo, Yamaha Factory Racing
Foto de: Gold and Goose Photography / Getty Images
P: O que foi que o motivou definitivamente a optar pelo projeto da Honda?
Q: É uma situação complexa para explicar tudo. Chegou um momento em que eu queria me separar da Yamaha e buscar um novo projeto. Tivemos reuniões com várias marcas, entre elas a Honda. Nessas reuniões, eu tinha muitas perguntas e, além de responderem às minhas dúvidas, me mostraram aspectos do projeto que me fizeram tomar a decisão de ir para lá.
P: Quando você se comprometeu com eles, a moto de referência era Ducati. Por que você não tentou ir para a Ducati?
Q: Porque acredito que a Honda, há anos, está passando por um momento em que quer voltar a vencer. Está dedicando todos os seus recursos para voltar ao topo. Com a mudança no regulamento, as novas motos e os novos pneus, acredito que a Honda pode causar uma surpresa e apresentar uma moto muito competitiva.
P: Você não fica preocupado com a possibilidade de alguém como Marc Márquez sair de lá por motivos semelhantes aos que o levam a deixar a Yamaha?
Q: Acho que eles entenderam. A Honda perdeu o melhor piloto de todos, e naquele momento entenderam o que Marc estava pedindo. Perceberam que precisavam trabalhar de forma muito mais agressiva. Nos últimos dois anos, a Honda deu um grande salto à frente.
P: Você conversou com o Marc sobre isso?
Q: Não, de jeito nenhum.
P: Faz um tempo que você não luta constantemente pela vitória. Como você sabe que não perdeu essa “garra” ou a fome de vitória?
Q: Porque eu sinto isso aqui [ele toca o coração]. É como um cachorro que fica três dias sem comer. Quando a comida está na frente dele, você vai ver como ele vai se jogar nela. Neste momento, estou como esse cachorro. Sei que, quando tiver uma chance real de vencer ou de lutar pela liderança, vou aproveitar. Isso ficou claro em Silverstone, no ano passado. Surgiram algumas circunstâncias que me permitiram lutar pela vitória, e eu estava lá. Essa garra continua intacta.
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