"Dakar no Pix": a curiosa saga de um time brasileiro no desafio internacional

Carro suspenso na árvore, fuga de piratas e campanha para comprar peças de "porta em porta"

Rodrigo Varela e Enio Bozzano

Rodrigo Varela e Enio Bozzano

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Com 17 representantes, o Brasil tem neste ano sua maior delegação no Rally Dakar, que acontece até o próximo dia 19 de janeiro, na Arábia Saudita. Entre os bons resultados registrados nesta edição, uma equipe tem chamado a atenção por sua aventura singular no maior desafio do mundo.

A dupla Rodrigo Varela/Enio Bozzano Júnior (Can-Am Maverick XRS Turbo) compete na categoria UTV T4 pelo Team Brazil, formado por técnicos brasileiros e familiares dos competidores. A equipe tem apoio das empresas Divino Fogão, Can-Am, Motul e Quadrijet. 

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Com todos os integrantes com larga experiência no esporte, a ideia era mostrar com um time inédito a qualidade da mão de obra do país na maior vitrine do rally internacional. E, apesar dos revezes, eles estão fazendo justamente isso.

Quem anda pelo acampamento do Dakar, no meio do deserto, pode encontrar membros da equipe visitando times concorrentes, na intenção de comprar peças.

“Aqui é no Pix”, brinca Reinaldo Varela, pai de Rodrigo, que é o responsável pela localização de peças de reposição e negociações. “Todo mundo sabe que não temos peças de reposição, e no Dakar as trocas de muitos componentes são obrigatórias porque o equipamento simplesmente não aguenta".

"Não é uma utilização normal, é sempre no pico do desempenho”, explica ele, que tem uma bem sucedida carreira no ramo da alimentação e está acostumado a negociar. “Então, um dos meus papéis é ir de porta em porta tentar comprar componentes que nos faltam”, completa.

Início dos problemas

A falta de peças tem uma explicação. O navio cargueiro que levava o carro e os equipamentos de Rodrigo e Enio teve que desviar do Mar Vermelho, fugindo de piratas houthis, do Iêmen, que atacavam embarcações na região. Isso alongou a viagem em mais de 20 dias e fará a carga chegar na Arábia Saudita somente no dia 16, já próximo do encerramento da prova. A saída foi improvisar.

“Ficamos sabendo do problema no dia de Natal, quando estávamos em família celebrando a festa. No dia seguinte, já saímos em busca de uma alternativa e recebemos a notícia de um carro disponível em Portugal. Conseguimos fazer as adaptações em tempo recorde e, felizmente, o nosso UTV passou na vistoria e pôde competir. O principal estava feito: iríamos correr”, lembra Rodrigo, que é o atual campeão sul-americano de rally raid e está fazendo sua estreia no Dakar.

Como era de se esperar, devido aos atrasos, a equipe teve dificuldades para se instalar no acampamento da prova. Sempre falta algo, que está embarcado no navio. “Logo que cheguei, não tínhamos energia elétrica, por que nosso gerador está ainda lá no barco”, detalha Rodrigo.

“Essa foi minha primeira missão, assim que coloquei o pé na areia do deserto: arrumar um gerador emprestado. E percebi que dali em diante a rotina seria essa: como dizem, a gente teria que se virar nos trinta. Mas o Dakar é isso, desafios todos os dias”.

Tudo improvisado

O visual do carro preparado às pressas já entrega a improvisação: é todo preto, cor original, pois não houve tempo de pintar nos tons dos patrocinadores, como é a prática no esporte a motor. Mas, virando noites e apelando para a criatividade, o Team Brazil surpreendeu, apesar dos recursos escassos diante da concorrência.

“O Dakar começou com a disputa do prólogo, que é uma corrida curta que define as posições de largada. Não acreditamos quando vimos que estávamos em quinto lugar. Foi um resultado espetacular diante de todas as atribulações que a equipe vinha passado”, conta Rodrigo.

No dia seguinte, o Dakar competiria pelos 414km que formaram a primeira das 12 especiais previstas para a edição 2024. E, novamente, a dupla obteve um resultado que mereceu aplausos nas tendas da competição: Rodrigo e Enio conquistaram a vitória, assumindo a liderança na categoria UTV T4, apesar de ter que parar para substituir uma roda quebrada.

“Vocês não têm ideia de como foi difícil essa especial. Parecia uma gincana. Zilhões de coisas pra prestar a atenção, para evitar quebra ou pneu rasgado”, lembrou o vencedor.

A segunda especial foi ainda menos tranquila. A dupla teve problemas de navegação e terminou em nono lugar – uma posição ainda bem competitiva considerando a distância total do dia, de 431km. Com isso, os brasileiros caíram para a vice-liderança.

Inusitado: carro na árvore

Ontem (segunda-feira), o duo do Team Brazil voltou a andar forte, nos 447km da terceira especial, mas o Dakar novamente fez seus caprichos. “Nós fomos desviar de uma rocha grande, íamos bater feio, mas com isso caímos em cima de uma moita gigante. O UTV ficou preso lá em cima, com as quatro rodas no ar”, conta Rodrigo. Junto com Enio, o piloto conseguiu liberar o veículo, para ainda terminar em sétimo no dia, caindo de segundo para quarto na classificação geral da T4.

De volta ao acampamento, o time brasileiro continuou sua rotina complicada de manutenção do carro. “Sem peças, fica difícil”, diz Reinaldo Varela, que é tricampeão mundial de rally e já venceu o Dakar na mesma categoria disputada agora pelo filho.

“Curiosamente, o nosso sucesso tem sido também o que nos atrapalha. As equipes que têm peças de reserva ficam com receio de nos vender ou ceder e nós acabarmos ganhando delas. Mas a gente não desiste. O que não resolvermos na criatividade, na improvisação, vamos conseguir na negociação. Aqui, nos mercados públicos da Arábia, é tradição pechinchar. Então, vamos na deles. Brasileiro também gosta de fazer bons negócios”, finaliza o chefe da equipe Team Brazil.

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