Conheça Carol Nunes, a primeira pilota trans do Brasil, que fez seu próprio carro de competição

Paulista de 30 anos vem deixando sua marca no esporte a motor e busca realizar sonho de correr nas principais categorias de turismo do Brasil

Conheça Carol Nunes, a primeira pilota trans do Brasil, que fez seu próprio carro de competição
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Tradicionalmente dominado por homens, aos poucos o automobilismo vai ganhando uma importante diversidade, de gêneros, raças, etnias e orientações. Por isso, neste Dia Mundial do Orgulho LGBTQIA+, o Motorsport.com conta a história de uma pilota trans brasileira que vai deixando sua marca no esporte a motor.

Carol Nunes é uma paulista de 30 anos que tenta construir uma carreira no automobilismo e, aos poucos, ganha respeito e notoriedade pelo que já realizou. Ela é conhecida também por um projeto que chamou a atenção, ao transformar um Ford Fusion em um carro de corrida digno da Stock Car. Ela falou com exclusividade ao Motorsport.com para contar sua história.

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A paixão por carros e o início no automobilismo

Assim como a maioria dos fãs, a paixão por carros e automobilismo surgiu da infância: “Eu sempre quis ter um carro de corrida. Não entendia por que não tinha carro de corrida nas ruas, só nas pistas, e eu queria ter um para andar na rua”.

E enquanto muitos pilotos iniciam sua trajetória no esporte pelo kart, o caminho de Carol foi diferente, começando quando Nunes já tinha mais de 20 anos, com o Fusion em mãos.

“Nunca cheguei a fazer kart, só quando já era pilota. Eu comecei com Track Day. Depois que o Fusion ficou pronto, ele começou a chamar a atenção, ficou bem famoso. E aí me convidaram para correr na Subida de Montanha, que é uma categoria bem legal, similar ao Pikes Peak [prova tradicional que acontece desde 1916 no estado americano do Colorado]”.

“Mas quando me convidaram, eu pensei: ‘De jeito nenhum, como que vou competir com o Fusion?’. Mas a organização falou que era para eu ir me divertir. Eu participei e voltei com o troféu de segundo lugar. E só fui segunda porque houve um problema com um carro que não deveria estar na minha categoria”.

Ainda com o Fusion, Carol disputou a Super Liga Desportiva de Velocidade, que abriu em 2021 uma categoria para mulheres. Nunes começou a ganhar corridas, liderou o campeonato e, eventualmente, saiu com o título em mãos.

Carol Nunes

Carol Nunes

Photo by: Reprodução

O ousado projeto do Ford Fusion GT3

Mas o caminho de Carol no automobilismo está intrinsecamente ligado ao seu Fusion, que ela adaptou sozinha para se tornar, ao mesmo tempo, um carro de corrida e um veículo de rua legalizado.

“Não tinha a intenção de fazer esse projeto. Mas com o tempo foi batendo a vontade de modifica-lo. Veio aquela paixão de infância, e eu comecei a estudar o que poderia fazer com ele. Comecei a estudar carros de turismo, como Stock Car e DTM”.

Mas o que muitos não sabem, e devem ficar surpresos, é que Carol liderou sozinha esse projeto de transformação do Fusion, mesmo não sendo uma engenheira de formação.

“Eu fui montando na minha cabeça como eu queria. Comecei do zero, montei praticamente sozinha na garagem. Na cara e na coragem. Eu sempre tive facilidade para coisas manuais”.

“Eu desenvolvi a maior parte das peças eu mesma, porque não há nada do tipo para o Fusion. Eu alarguei a carroceria, em quase 20 cm, com fenders laterais. Ele usa roda oficial da Stock Series, tem uma gaiola de proteção, banco e cinto homologados, freio preparado para performance”.

“Eu demorei meses para começar a trabalhar em algumas coisas, porque nunca tinha mexido com fibra de vidro. Tive de aprender a me virar. Achei que tinha estragado o carro, as peças, mas não desisti”.

Entretanto, obviamente há um limite no que uma pessoa pode fazer sozinha e, nestes momentos, ela terceirizava, embora sempre mantendo sua visão no projeto.

“O aerofólio eu também fiz do zero, projetei e fabriquei de casa, mas algumas coisas eu mandei cortar. Quando eu precisava de algo mais profissional, eu terceirizava, como o suporte do aero, mas eu desenhei antes de mandar”.

Carol Nunes

Carol Nunes

Photo by: Reprodução

Ser uma mulher trans no automobilismo

Se a presença feminina no automobilismo já é algo limitado, mesmo hoje em dia, a presença de mulheres trans é ainda menor. Felizmente, seu percurso acabou sendo melhor do que esperava, mas ainda com alguns desafios.

“Na minha vida pessoal, já tinha feito a transição há muito tempo. Mas quando comecei a participar de eventos, me disfarçava, porque tinha medo da reação das pessoas. Eu tinha na cabeça que sofreria muito. Mas fiz amizades incríveis, que me apoiaram muito”.

“Transfobia mesmo eu passei no último ano, na Superliga, porque competia em uma categoria feminina. E já era uma categoria pensando na inclusão. Mas quando comecei a ganhar, uma das mulheres foi questionar a organizadora, dizendo que eu não deveria estar participando”.

“E quando cheguei na Copa HB20, acabei ouvindo alguns comentários ruins de pilotos e pais de pilotos. Mas, no geral, fui muito bem aceita”.

Carol Nunes

Carol Nunes

Photo by: Reprodução

O sonho interrompido e os próximos passos

No começo deste ano, Carol parecia a caminho de realizar mais um sonho em sua estreia na Copa Shell HB20, categoria de apoio à Stock Car. Mas após a primeira etapa, em Interlagos, a situação mudou.

“Tinha uma patrocinadora, consegui entrar na HB20 e estava tudo certo para fazer a temporada. Mas eu estava me preparando para a segunda etapa quando ela sumiu, não pagava os custos da etapa, e eu fiquei de fora. Ela quebrou e sumiu com o dinheiro de todos os clientes, me deixou com dívidas”.

 

Com isso, seu sonho de correr na HB20 foi interrompido, o que fez seu mundo desmoronar. Agora, Carol procura um novo patrocinador que a ajude a seguir nesse caminho. Enquanto isso, ela espera o swap de câmbio do Fusion ficar pronto para voltar às pistas. E ela não desistirá de seu sonho de correr em categorias como Stock Car e TCR.

Além disso, ela tem um sonho mais próximo: correr as 1000 Milhas Brasileiras em janeiro do próximo ano.

Enquanto isso, Carol segue sua trajetória, tornando-se também uma referência para a comunidade LGBTQIA+ dentro do esporte a motor: “Quase não vejo nada sobre isso, então acabo quase sendo uma desbravadora nesse meio, porque quase não vejo menções. Então meio que viro uma referência, é uma responsabilidade gigante. Comecei a ter várias pessoas me seguindo por isso, o que não esperava, mas que está sendo bem legal”.

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