ANÁLISE: Por que a licença criativa da Netflix é um pequeno preço a se pagar para a F1 em comparação aos benefícios

OPINIÃO: Max Verstappen falou da sua frustração com Drive to Survive, mas qualquer ponto negativo da série acaba sendo superado pelo efeito positivo que ela possui na F1 como um todo, como visto pelos ingressos esgotados no GP dos Estados Unidos

ANÁLISE: Por que a licença criativa da Netflix é um pequeno preço a se pagar para a F1 em comparação aos benefícios

O GP dos Estados Unidos no Circuito das Américas neste fim de semana marcou um momento importante para a Fórmula 1 no país.

Dezesseis anos após um fundo do poço com o fiasco de Indianápolis em 2005, a F1 atingiu um novo pico com o mercado americano devido a um evento com ingressos esgotados em Austin.

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Desde o retorno da F1 aos Estados Unidos em 2012 (quatro anos após a última passagem por Indianápolis), o momento vinha sendo construído, acelerado após a aquisição pela Liberty Media. Com uma segunda corrida planejada para Miami em 2022 e os rumores de uma terceira, a F1 vive um bom momento em terras americanas.

Muito do crescimento recente pode ser creditado ao sucesso de Drive to Survive na Netflix. A série tem ajudado a quebrar muitas barreiras, trazendo novos fãs à F1, criando uma nova onda de interesse, particularmente nos Estados Unidos.

O diretor do Circuito das Américas, Bobby Epstein, sempre foi honesto sobre o impacto de Drive to Survive no GP em Austin, notando seu papel na venda de ingressos para 2021, com o interesse aumentando entre os fãs após a ausência no ano passado por causa da Covid-19, em um momento em que a série atingiu picos de audiência pelo mundo.

Por isso é irônico notar que muitos dos comentários neste fim de semana sobre Drive to Survive tiveram origem nas declarações de Max Verstappen em uma entrevista com a Associated Press.

"Eu entendo que isso precisa ser feito para aumentar a popularidade nos Estados Unidos. Mas, do meu lado, como piloto, não gosto de fazer parte".

O holandês criticou a produção por usar entrevistas suas em assuntos que não eram os discutidos no momento, falseando a realidade.

"Eles falsificaram algumas rivalidades que não existem de verdade. Então decidi não participar disso e não dar mais nenhuma entrevista desde então, porque assim não tem nada para mostrar. Não sou uma pessoa que gosta de programas de drama, gosto dos fatos e das coisas reais".

Max Verstappen, Red Bull Racing, with Helmut Marko, Consultant, Red Bull Racing

Max Verstappen, Red Bull Racing, with Helmut Marko, Consultant, Red Bull Racing

Photo by: Mark Sutton / Motorsport Images

Certamente o ponto de Verstappen possui seus méritos. Na última temporada, recapitulando o campeonato de 2020, um dos episódios focou na McLaren e a dinâmica entre Carlos Sainz e Lando Norris. O episódio construiu a parceria como uma rivalidade profunda, especialmente após a contratação do espanhol pela Ferrari. Sainz também já havia sido figura central no ano anterior, em uma rivalidade com Daniel Ricciardo pela ponta do pelotão do meio.

Vários outros fatores também foram aumentados em Drive to Survive para entregar um roteiro melhor, mais dramático. Coisas como estratégias de parada, batalhas no Mundial de Construtores e mudanças de pilotos - lembre de Christian Horner ligando para Sergio Pérez no final da terceira temporada dizendo "bem-vindo à Red Bull" - não são 100% verdadeiras, e isso pode irritar alguns fãs da F1.

O modo como as rivalidades são retratadas também se tornou parte da cultura de memes na esfera social da F1. Após os incidentes deste ano, os fãs vêm montando paródias de "como Drive to Survive retrataria isso". Estes vídeos acumulam centenas de milhares de visualizações no YouTube, usando exageros ao extremo e edição inteligente para entreter fãs.

Mas isso casa com o ponto de Verstappen. Na entrevista, ele ainda referenciou a cena em que ele e Lewis Hamilton tiveram um esbarrão após a classificação em Ímola, afirmando: "Possivelmente estará lá". Em maio, alguém já fez um vídeo exatamente sobre isso.

Então, teria a Netflix ido longe demais com a licença criativa usada em Drive to Survive, chegando ao ponto do líder do campeonato não querer mais participar?

Vale lembrar qual é o propósito da série. Fãs da F1 que buscam um retrato perfeito da temporada já perceberam há muito tempo que esse está longe de ser o propósito de Drive to Survive. O ponto da série é abrir a cortina e mostrar as personalidades e personagens que formam o grid da F1, tornando-os mais acessíveis ao fã casual de esporte, colocando luz ainda em certas áreas que interessam mesmo os seguidores mais ávidos das corridas.

A pista está no nome: Drive to Survive (Dirigir para Viver, em português). Pense no que isso significa. Sim, há um perigo inerente no esporte a motor, como todos sabemos, mas isso não é algo que o ávido seguidor está buscando quando ele senta para ver a corrida. É sobre a competição. Mas, novamente, para tentar capturar uma audiência mais ampla, o fator de risco da F1 é usado em Drive to Survive, afinal, qual outro esporte tem isso? É por isso que os acidentes acabam sendo dramatizados, com o uso de efeitos sonoros.

George Russell, Williams FW43B being removed after spinning off in Turkish GP practice

George Russell, Williams FW43B being removed after spinning off in Turkish GP practice

Photo by: Mark Sutton / Motorsport Images

Mas Verstappen não encontrou muitas pessoas pelo paddock que compartilhem de suas críticas ao retrato que Drive to Survive faz da F1.

"Sim, eles criam algum drama", disse Sergio Pérez. "O modo como eles vendem o esporte, tem um pouco de drama. Eu imagino que isso faça uma série. Mas, no fim do dia, é bom para o esporte e é bom para os fãs. Fico tranquilo com isso".

"Estou bem com isso", disse Lando Norris. "Você pode escolher várias coisas que deveriam entrar mas não entram. Eu acho que é legal. Especialmente ao vir para os Estados Unidos, há tantas pessoas que hoje gostam a F1 por causa da série, acho que nos saímos bem aqui".

Zak Brown, chefe da McLaren, frequentemente fala dos benefícios da série.

"É feito para fãs mais jovens, isso trouxe uma base de fãs mais jovens. Teve um impacto grande nos EUA. Vejo como o factual com um pouco de teatro. E isso é a televisão. Acho que eles estão fazendo o que nós, como esporte, gostaríamos, que é trazer novos fãs. Nisso, tem sido bem-sucedido".

Brown acertou em cheio. Há algum teatro, algo que fãs mais radicais da F1 podem não apreciar, mas, na verdade, esses não são o público-alvo de Drive to Survive. Novamente, a série não é para ser vista como uma revisão da temporada.

A Mercedes tinha seus receios sobre o impacto da Netflix e a possibilidade da gravação da primeira temporada, em 2018, acabar sendo uma distração. Mas Toto Wolff rapidamente mudou de ideia quando percebeu os vastos benefícios que poderia tirar.

Zak Brown, CEO, McLaren Racing, and the McLaren team celebrate Italian GP victory

Zak Brown, CEO, McLaren Racing, and the McLaren team celebrate Italian GP victory

Photo by: Glenn Dunbar / Motorsport Images

"No começo não estávamos animados, porque queríamos nos concentrar na performance na pista, e eu estava errado", disse. "É claramente um grande sucesso. Em todo o mundo, ocupou a primeira posição na Netflix entre documentários por um bom tempo e se tornou parte da F1. Claramente é possível ver seus benefícios".

"Somos um esporte e precisamos manter os valores do esporte, sem coisas erradas, mas esporte é entretenimento e esse pessoal nos trouxe um novo ângulo, uma nova dimensão".

Este que vos escreve teve uma conversa com um dos produtores de Drive to Survive no início do ano sobre o impacto da série nos EUA. Ele contou uma história de como conheceu uma família em um hotel em Austin há alguns anos, que haviam se tornado fãs fanáticos de Esteban Ocon, sem ter nenhum interesse na F1 antes. Na primeira temporada, Ocon teve um papel fundamental na história, com seus problemas em seguir no grid em 2019.

Relembrando desta história no final de semana, Ocon explicou como ele vê a série como um fator fundamental para salvar sua carreira na F1.

"A série me retratou em momentos difíceis, quando eu não tinha uma vaga, e a série saiu, as pessoas puderam ver o meu desespero para seguir pilotando. Isso possivelmente ajudou a minha carreira, o meu retorno. Acho que é ótimo que as pessoas tenham acesso a isso hoje".

Com 140 mil fãs no circuito no domingo promovendo um ambiente festivo, é importante aceitar que uma pequena licença criativa em Drive to Survive pode oferecer ganhos ainda maiores do que as pequenas preocupações causadas.

Assim como a série se virou sem Hamilton e a Mercedes na primeira temporada, Drive to Survive continuará sendo um sucesso, trazendo novos fãs para a F1, com ou sem Verstappen.

Esteban Ocon, Alpine A521

Esteban Ocon, Alpine A521

Photo by: Glenn Dunbar / Motorsport Images

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