Análise
Fórmula 1 GP de Singapura

F1: Quais punições Red Bull e Aston Martin podem receber se confirmada a violação do teto orçamentário?

Assunto do paddock em Singapura, temática é complexa demais, podendo ter repercussões posteriores que mudariam o resultado de um campeonato

Sergio Perez, Red Bull Racing RB18, Charles Leclerc, Ferrari F1-75, lead the field away at the start

A temporada de 2021 da Fórmula 1 volta a ser o centro das atenções mesmo na reta final do campeonato de 2022. A bola da vez, que domina as discussões no paddock do GP de Singapura é a possível violação do teto orçamentário por Red Bull e Aston Martin no ano passado. E por se tratar de algo inédito, muitos se questionam qual poderia ser a punição para algo do tipo, já que não há precedentes e a lista de possíveis sanções não é pequena.

O assunto surgiu no início da sexta-feira (30). Na próxima semana, a FIA deve entregar às equipes os certificados de cumprimento do teto orçamentário referentes ao ano passado e, em meio a expectativa, aparece a informação de que dois times teriam excedido o limite de gastos de 2021, fixado em 145 milhões de dólares: Red Bull e Aston Martin.

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O regulamento financeiro da F1 traz uma lista de violações, a maioria relacionada às equipes não anunciarem seus gastos na janela de tempo determinada, ou maquiar os relatórios entregues para a Administração do Teto Orçamentário [ATO], o órgão responsável pelo policiamento.

Em junho deste ano, ouvimos pela primeira vez uma ofensa do tipo, mas uma de menor importância: a Williams foi multada em 25 mil dólares por não submeter os documentos de 2021 antes do prazo de 31 de março deste ano.

Porém, as partes mais importantes do regulamento financeiro são relacionados aos casos que podem ser mais comuns (e danosos): gastar além do limite, assunto da vez na F1.

Tais violações serão repassadas ao Painel de Adjudicação do Teto Orçamentário [PATO, CCAP em inglês], um grupo de seis a doze juízes determinados pela FIA e as equipes. Qualquer decisão tomada pode ser desafiada pela equipe envolvida ou terceiros, na Corte Internacional de Recursos.

Gastar além do limite, seja comprovado de forma voluntária pela equipe ou descoberto posteriormente via uma investigação, cai em duas situações.

Há uma divisão clara: gastos acima do teto orçamentário abaixo de 5% do valor total do ano é visto como "consumo mínimo", que seria o caso da Aston Martin, enquanto acima dos 5% já é um "consumo material". O segundo, que é o da Red Bull segundo informações de bastidores, é tratado de forma mais séria.

E esses 5% não são insignificantes. As equipes miram um teto de 140 milhões de dólares [R$680,4 milhões] para 2022, mais 1,2 milhões [R$5,83 milhões] para cada corrida excedente. Como este ano temos 22 corridas, o total passou a 141,2 milhões de dólares [R$686,2 milhões].

Com isso, a marca dos 5% representa gastos extras na casa de 7 milhões de dólares [R$34 milhões], o que equivale a uma grande verba de pesquisa e desenvolvimento, potencialmente o suficiente para ganhar ou perder o título.

Nicholas Latifi, Williams FW44, makes a stop

Nicholas Latifi, Williams FW44, makes a stop

Photo by: Sam Bloxham / Motorsport Images

O regulamento determina que, no evento de violações do teto abaixo de 5%, o CCAP "pode impor uma penalidade financeira e/ou penalizações desportivas de menor patamar".

A penalidade financeira é definida simplesmente como "uma multa de valor a ser determinada com base em cada caso". A multa pode ser vista como um tapa na mão para uma organização que literalmente tem mais dinheiro para gastar do que pode, mas o que mais preocupa as equipes são as sanções desportivas, com o documento dizendo que "uma ou mais" podem ser selecionadas.

A sanção menos dolorosa é uma reprimenda pública, mas é algo que uma equipe ligada a uma montadora, como a Mercedes, ficaria envergonhada de receber. Só que as mais dramáticas envolvem dedução de pontos nos Mundiais de Pilotos e / ou Construtores.

E há ainda o que é porcamente definido como "suspensão de um ou mais estágios de competição ou competições, excluindo a corrida para não deixar dúvidas" o que efetivamente significam treinos livres.

Há também duas penalizações que afetam a performance futura em vez dos resultados passados, uma redução do teto da própria equipe no ano seguinte e "limitações na habilidade de conduzir testes aerodinâmicos ou diversos".

E se a equipe exceder o teto orçamentário por mais de 5%, entrando especificamente nas "penalizações desportivas de consumo material"?

Em tal caso, um elemento da sanção é claro: o CCAP "determinará uma dedução nos pontos do Mundial de Construtores". Adicionalmente, "pode impor uma penalização financeira e / ou outras penalidades desportivas".

Todas as penalizações determinadas pelas violações abaixo de 5% seguem como opções, com a exceção da reprimenda pública. Mas, neste caso, outras duas sanções são adicionadas ao menu. São elas: "suspensão de uma competição ou competições na íntegra, incluindo a própria corrida para evitar dúvidas" e, a mais dramática de todos: "exclusão do campeonato".

Charles Leclerc, Ferrari F1-75, the field away at the start

Charles Leclerc, Ferrari F1-75, the field away at the start

Photo by: Steven Tee / Motorsport Images

Mas algo que ainda não sabemos é como a penalização será definida pelo CCAP em meio às opções disponíveis, para as violações de maior e menor grau. Só que o regulamento deixa claro que as circunstâncias terão um papel nesse caso. Em essência, se você cooperar com a ATO e os auditores da FIA, a punição deve ser mais leve.

Fatores agravantes incluem "qualquer elemento de ma fé, desonestidade, ocultação intencional ou fraude", "falha em cooperação", registro de "múltiplas violações" dentro de um ano ou violações no ano anterior.

Por outro lado, existem fatores que devem aliviar a barra das equipes, como "divulgação voluntária", um "histórico de conformidade", "cooperação plena e irrestrita" e, talvez o mais significativo de todos "eventos imprevisíveis de força maior".

Será que as equipes poderão usar a inflação global como força maior, citando o papel do conflito na Ucrânia como algo chave? Quem acredita que violará o teto certamente está ciente da relevância desses 5%, associado a penalizações menores. Porém, eles não sabem exatamente quais penalizações serão distribuídas. Assim, tentar ficar dentro dos 5% pode ser uma aposta.

"No regulamento, há um patamar, que é de 5%", disse Mattia Binotto, chefe da Ferrari, mais cedo neste ano. "Se você não ultrapassar esses 5%, acima do teto orçamentário, é considerado uma violação menor. E o que seria uma violação menor em caso de força maior? O que dirão os comissários e a FIA em termos de penalizações? Não sabemos".

"Mas não acho que há como nós e outras equipes ficarmos dentro disso. E mesmo demitir pessoas, não acho que seja uma solução boa ou correta. Já estamos chegando no verão. Até organizar e fazer isso, o benefício que sairia disso não é suficiente para lidar com o excesso de gastos que temos".

Christian Horner, Team Principal, Red Bull Racing, chats with Mattia Binotto, Team Principal, Ferrari

Christian Horner, Team Principal, Red Bull Racing, chats with Mattia Binotto, Team Principal, Ferrari

Photo by: Carl Bingham / Motorsport Images

Binotto tem certeza de que, sem uma alteração no teto orçamentário para controlar a inflação, o regulamento será violado por várias equipes.

"Quais serão as implicações? Para mim, o mais importante é que muitas equipes devem estourar o teto. E acho que isso será ruim para o regulamento financeiro".

"Vamos começar a debater se esse regulamento financeiro é válido, se ele está funcionando. Vamos retomar todas essas discussões. E acho que, novamente, para evitar isso, porque é importante termos um limite de algum modo, acho que o único modo é respirar e tentar fazer um trabalho melhor para o próximo ano e o seguinte".

Já Christian Horner, hoje envolvido na polêmica, fez um ponto intrigante mais cedo neste ano sobre o quão próximas algumas equipes podem ficar dos 5%, no modo típico da F1 de ir além do limite.

"Tenho certeza de que todas as equipes maiores vão quebrar esse limite de 140 milhões. Como Mattia destacou, há 5% para uma violação menor. Mas qual será a punição para isso?".

"O que não queremos é terminar brincando de covarde. É de se perguntar: vamos passar em 4,9%? Passamos em 4,7%? E isso vale aquela uma atualização que pode ser o fator determinante na conquista do título?".

Os chefes das equipes de ponta falam abertamente à imprensa sobre a alta probabilidade de quebrar o teto, e eles têm falado bastante sobre isso nas reuniões da Comissão da Fórmula 1 e em eventos similares.

Na verdade, eles não estão escondendo nada, preparando o terreno para que várias equipes quebrem o limite de 141,2 milhões, deixando o CCAP com o difícil trabalho de distribuir penalizações quando os números finais são analisados, após o fim da temporada.

Nicholas Latifi, Williams FW44, Esteban Ocon, Alpine A522, Alex Albon, Williams FW44, chase the pack at the start

Nicholas Latifi, Williams FW44, Esteban Ocon, Alpine A522, Alex Albon, Williams FW44, chase the pack at the start

Photo by: Jerry Andre / Motorsport Images

Será que os membros do CCAP serão mais lenientes com aqueles que não levarem os gastos longe demais? E como eles vão lidar com o fato de que as equipes sabem o ano todo que irão exceder o teto orçamentário, mesmo que uma das regras básicas do regulamento é que eles "não podem ter gastos relevantes no excedente do teto"?

A maior questão é se o CCAP será ousado o suficiente para tomar uma decisão pós-temporada envolvendo dedução de pontos que impactará o resultado final dos Mundiais de Pilotos e Construtores. Vale lembrar que eles são juízes que operam independentemente da FIA, sem carregar nenhuma bagagem.

Tirar o título de um piloto seria uma decisão muito grande a ser tomada, mas um pode argumentar que atletas já perderam suas medalhas olímpicas meses ou mesmo anos após seus eventos, por causa do processo natural que os casos de doping passam pelo sistema judicial. Nunca é tarde demais para penalizar quem burla as regras.

Porém, tal resultado na F1, feito muito tempo após o GP de Abu Dhabi, pode tornar a problemática final de 2021 algo positivo em comparação. Inevitavelmente, isso seria seguido por um apelo à Corte Internacional de Recursos, o que levaria o caso cada vez mais longe, enquanto o próprio CCAP pode revisar sua decisão caso surjam novas evidências em um período de três meses.

Vale notar ainda que o regulamento financeiro opera com um prazo de prescrição de cinco anos, criando uma janela de manobra para algum denunciante, que deixou uma equipe posteriormente, relatar um comportamento desonesto. Em outras palavras, o CCAP pode voltar a investigar a temporada de 2022 em 2027...

Será que as equipes estão simplesmente apostando no fato de que, se todas estourarem o teto orçamentário, mas ficando dentro dos 5%, eles não enfrentarão sanções mais duras, que impactariam o campeonato? Certamente parece que sim".

Christian Horner, Team Principal, Red Bull Racing, Carlos Sainz, Ferrari, 2nd position, Sergio Perez, Red Bull Racing, 1st position, Max Verstappen, Red Bull Racing, 3rd position, on the podium

Christian Horner, Team Principal, Red Bull Racing, Carlos Sainz, Ferrari, 2nd position, Sergio Perez, Red Bull Racing, 1st position, Max Verstappen, Red Bull Racing, 3rd position, on the podium

Photo by: Zak Mauger / Motorsport Images

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