ANÁLISE F1: O que o retorno do "gladiador" Allison fala sobre o presente e o futuro da Mercedes

Troca entre James Allison e Mike Elliot nos cargos de diretor técnico e CTO incendiaram os bastidores da F1 nesta sexta-feira

James Allison, Mercedes

Na manhã desta sexta-feira, o Motorsport.com revelou que James Allison está retornando ao posto de diretor técnico da Mercedes, em uma troca com seu sucessor, Mike Elliott, que se torna o chefe técnico (CTO) do time alemão na Fórmula 1. Essa é a história do momento na temporada, e que deve mexer também em uma das equipes de maior sucesso do esporte.

De certo modo, isso é algo inédito para a moderna Mercedes, que se encontra em uma situação bem diferente da vista em anos anteriores, quando foi uma grande força dominadora. O caso é tão complicado, sem conseguir reduzir a distância para a Red Bull que o time sentiu ser necessária essa mudança no staff técnico.

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E há duas semanas, o chefe da Mercedes, Toto Wolff, vinha dizendo publicamente que Allison não havia retornado a um trabalho direto com o carro da equipe. Seu cargo atual envolve também o trabalho na America's Cup com a parceria com a INEOS, acionista do time.

Por outro lado, essa mudança é a cara da Mercedes. Wolff disse que a mudança foi feita a pedido de Elliott. Que Elliott sentia que "com James, temos um gladiador em campo e as tropas atravessam o fogo por ele".

Até agora não temos uma comunicação oficial da Mercedes sobre a troca, e apuramos que a situação deve seguir assim, o que minimiza o impacto para Elliott e todo o time. Mas a equipe queria que a notícia saísse, dando a informação de forma exclusiva a Jonathan Noble, editor de F1 do Motorsport.com, incluindo uma entrevista exclusiva com Wolff.

Isso é tanto uma tentativa de preservar a cultura de uma equipe unida como também, aparentemente, uma forma de incendiar e revitalizar suas chances na F1.

O que não tem como saber totalmente agora é o quanto da decisão de Elliott foi tomada em reação à pressão interna da Mercedes em seu processo de recuperação.

Mike Elliott, Technology Director, Mercedes AMG, in the Press Conference

Mike Elliott, Technology Director, Mercedes AMG, in the Press Conference

Photo by: FIA Pool

Sempre havia a possibilidade que a Mercedes pudesse perder a força que tinha na entrada do novo regulamento. Mas enquanto a queda da equipe foi grande graças ao porpoising do W13, a Red Bull, sua rival, manteve sua posição, limpando a concorrência assim que os problemas de peso do RB18 foram resolvidos.

O conceito aerodinâmico, integrado completamente os designs críticos de suspensão e parte inferior do assoalho, que a Red Bull acertou em cheio, provaram-se ser os melhores da nova era. E a equipe que decidiu primeiro seguir esse mesmo caminho, a Aston Martin, subiu na ordem de forças.

Ao implementar evoluções de seus 'zeropods' e sidepods de inwash no começo de 2023, Mercedes e Ferrari correram o risco de perder terreno. Isso aumenta a pressão em cima da frustração, na verdade dobrando - chegando ao ponto do anúncio público da Mercedes no Bahrein sobre a mudança no conceito do carro. Agora, o que vinha sendo feito nos bastidores tem que ter sucesso.

Aparentemente, ao decidir por não trocar o conceito do carro antes de 2024, a Ferrari acaba triplicando essa pressão...

Talvez o mais significativo nessa mudança milimetricamente calculada da Mercedes entre Allison e Elliott esteja na declaração de Wolff de que a troca foi "muito guiada por Mike Elliott assumindo o processo". O uso da palavra "assumindo" sugere que Elliott reagiu aos problemas da equipe técnica da Mercedes sob sua supervisão, mas a outra reação, de Wolff, 'fede' à Mercedes.

Elliott não sofreu uma demissão, como foi o caso de Mattia Binotto na Ferrari e James Key na McLaren. Na verdade, Wolff manteve Elliott no barco, e sua posição como CTO reflete o seu valor para a organização. Agora, ele vai lidar com as melhores formas de distribuir os recursos técnicos da Mercedes dentro da organização e de uma perspectiva de desenvolvimento, com Allison focando em tornar o W14 e o W15 pacotes vencedores.

Há também uma segunda revelação em meio às palavras de Wolff, que jogam os holofotes em outra grande mudança no regulamento, essa no lado financeiro, e como que isso impactou a sempre bem-sucedida equipe de design da Mercedes.

Lewis Hamilton, Mercedes F1 W14

Lewis Hamilton, Mercedes F1 W14

Photo by: Jake Grant / Motorsport Images

Antes, o projetista-chefe, John Owen, "havia virado um administrador do teto orçamentário", segundo Wolff, com "muito trabalho extra atrelado". Agora, Owen volta a ser mais focado no design, com seu vice, Giacomo Tortora, passando ao cargo de diretor de engenharia, ajudando no trabalho de divisão dos recursos do teto. Isso lembra do período em que Aldo Costa trabalhava ao lado de Owen e Allison nesse papel antes de sua saída para chefiar o departamento técnico da Dallara em 2020.

É preciso lembrar que a Mercedes passou por grandes mudanças em seu departamento técnico entre 2014 e 2021, com outros engenheiros indo para cargos de direção e, talvez o mais famoso deles, Paddy Lowe, antecessor de Allison, indo para a Williams em 2017. Mesmo assim, a equipe seguiu vencendo.

Mas agora as coisas são muito diferentes para Allison e Wolff. Não é coincidência que a Aston esteja tão bem após contratar o ex-chefe de aerodinâmica da Red Bull, Dan Fallows, como também outro nome importante de aero da Mercedes, Eric Blandin, como vice-diretor-técnico. 

Então, em vez de substituir no topo da pirâmide, a estrutura interna, parte fundamental, ficou mais fraca do que quando Allison entregou o cargo no começo de 2021.

Isso acaba atraindo a atenção para esse novo desenvolvimento. A Mercedes está direcionando a responsabilidade que vem com a pressão de retornar aos dias de glória de volta a Allison, fazendo isso por causa de seu valor para a equipe.

Vale lembrar que Allison esperava "se afastar das pistas em direção ao sofá para torcer pela equipe nos bastidores" quando saiu do cargo de diretor técnico, querendo evitar tornar-se um problema.

Mas, na verdade, Wolff criou essa função de CTO para mantê-lo na equipe, uma decisão que agora parece recompensar a Mercedes, que volta a ter um diretor técnico de sucesso para retornar à glória. Ao mesmo tempo, essa grande troca de funções mostra que um momento-chave na liderança de Wolff na Mercedes provou ser um fracasso.

Mas a explicação de Wolff sobre o valor de "gladiador" de Allison via Elliott reflete que a Mercedes acredita que a terceira indicação de um diretor técnico será uma mudança bem-recebida internamente.

Allison é uma figura popular e respeitada dentro do staff da Mercedes, enquanto sua persona também agrada aos fãs. Trazendo isso de volta à F1, Allison também recupera o que a Mercedes perdeu com a ida do educado e compreensível James Vowles para a Williams.

Toto Wolff, Team Principal and CEO, Mercedes-AMG

Toto Wolff, Team Principal and CEO, Mercedes-AMG

Photo by: Sam Bloxham / Motorsport Images

É importante destacar que Allison tem uma história de sucesso que vai além da Mercedes. Ele foi chefe de aerodinâmica na Benetton durante os anos de Michael Schumacher e Ross Brawn, indo na sequência para a dominante Ferrari do começo dos anos 2000. Em 2005, ele foi para a Renault como vice-diretor-técnico, conquistando mais dois títulos com Fernando Alonso.

O espanhol ficou feliz quando Allison retornou à Ferrari em 2013, primeiro como diretor técnico de chassi e depois diretor técnico geral, ganhando mais força no paddock graças às máquinas feitas na Lotus sob sua direção com Kimi Raikkonen.

Sua segunda passagem pela Ferrari não teve tanto sucesso, com Allison tendo menos presença no design dos carros, além de ter que lidar com a morte de sua esposa em 2016, pouco antes de sua saída da equipe para ajudar a família.

O paddock da F1 ficou surpreso quando ele retornou à categoria, mas não com a Renault, e sim com a Mercedes como diretor técnico em 2017.

Seu trabalho para melhorar o design de chassi da Mercedes, considerado mais fraco no início da era turbo híbrida em comparação à Red Bull, mas compensado pelo motor muito superior, se tornou crítico, com as demais montadoras alcançando a potência nas UPs. A Ferrari (de forma controversa) e a Honda (surpreendentemente) acabaram superando a Mercedes nesse fronte, mas o time alemão seguiu vencendo.

Allison não liderou o departamento técnico que produziu o W08, no início desta era, mas quando a era dessas regras chegou ao fim, em 2020 (de forma 'espiritual'), a equipe havia produzido o W11 com o DAS, um pacote que voltou a dar à Mercedes a mesma grande vantagem vista entre 2014 e 2016.

James Allison, Technical Director, Mercedes AMG

James Allison, Technical Director, Mercedes AMG

Photo by: Steve Etherington / Motorsport Images

Esse carro certamente entrará para o hall de lendários da F1, porque ser produzido em uma era de regras estáveis é impressionante, ganhando ainda mais força com a queda da Ferrari após o acordo com a FIA no começo de 2020 por causa do motor.

Mas o retorno a um líder do departamento técnico que anteriormente trouxe à equipe sucesso sem precedentes e um recorde de títulos consecutivos não significa que a equipe voltará a vencer imediatamente. Agora, Allison precisa usar a estrutura técnica modificada, liderando-a para combater a posição muito superior da Red Bull, seguindo uma trilha de conceito já feita pela rival.

Mas a convergência de design é uma realidade posta em qualquer era de regulamento. O que foi inesperado foi a cultura da Mercedes e a sucessão de Allison na direção técnica ser tão conturbada com a produção de dois carros ruins em sequência. Por isso uma reação do tipo pode ser vista como imprevisível até que fosse considerada de fato.

São os resultados futuros desse desafio inesperado para a Mercedes e Wolff que contarão a história de como que a super equipe da F1 moderna evolui. Das duas uma: ou a Mercedes atingiu seu pico e não tem mais como chegar ao topo apesar da mudança para o lado correto, ou esse momento é apenas um interlúdio entre fases vencedoras.

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