ANÁLISE: Processo da FIA para novas equipes na F1 é muito mais complexo do que parece, e não garante entrada no grid

Anúncio feito por Sulayem é apenas o pequeno primeiro passo de um processo longo e que depende muito da influência política

Lance Stroll, Aston Martin AMR22, Nicholas Latifi, Williams FW44, take their grid spots for the start

Já se passaram os dias em que as equipes lutavam para sobreviver na Fórmula 1. Há pouco tempo, mesmo manter 10 times no grid era uma conquista. E agora a FIA reacendeu as conversas sobre novas escuderias se juntarem ao esporte em um futuro próximo, algo que muitos fãs pedem há algum tempo.

Na última segunda-feira (02), o presidente da FIA, Mohammed ben Sulayem, falou publicamente sobre isso pela primeira vez, pedindo à sua equipe para "investigar o lançamento de um processo de interesse para potenciais novas equipes na Fórmula 1".

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Apesar de não ser nada oficial, isso marca o primeiro passo para uma potencial expansão do grid. A manobra tem como objetivo entender realmente quantos interessados há por aí. Mas acrescentar uma 11ª equipe no grid é muito mais complicado do que simplesmente se manifestar, porque há muitas coisas que precisam ser superadas, independente da vontade da FIA ou da quantidade de candidatos em potencial.

Como funciona esse processo?

A Fórmula 1 não é uma categoria tão simples assim, em que você pode se juntar quando tiver vontade. Há um processo formal que precisa ser seguido e o candidato precisa provar seu valor em integrar o grid.

Sulayem mostrou o interesse em iniciar o processo, que começa com as expressões de interesse como parte do caminho para potenciais novas equipes. A última vez que tivemos algo do tipo foi em 2015, quando haviam 10 equipes no grid. O objetivo era encontrar um novo time para 2016 ou 2017.

Mohammed bin Sulayem, President, FIA, is interviewed

Mohammed bin Sulayem, President, FIA, is interviewed

Photo by: Carl Bingham / Motorsport Images

Apesar da FIA não ter encontrado potenciais candidatos, o processo foi importante para a FIA, que determinou os pontos-chave para novas equipe na F1, com destaque para quatro áreas:

a) A habilidade técnica e os recursos da equipe;

b) A habilidade da equipe em angariar e manter fundos suficientes que viabilizem a participação no campeonato em um nível competitivo;

c) A experiência e os recursos humanos da equipe;

d) A avaliação da FIA sobre o valor que o candidato pode trazer ao campeonato como um todo.

O ponto B era particularmente focal naquele momento. Seis meses antes, a Caterham havia encerrado suas operações e a Manor sobrevivia com ajuda de aparelhos, sofrendo para concluir a temporada 2016 antes de dar adeus.

Assim que a FIA recebe as candidaturas e completa sua análise através de inspeções e entrevista, toma uma decisão, seja pela liberação da entrada ou o impedimento.

O caso mais recente de uma equipe que sobreviveu ao processo com resultados satisfatórios foi a Haas, que teve sua entrada aprovada em 2014. O objetivo inicial era que o time americano integrasse o grid em 2015 antes de mudar para 2016, visando otimizar suas operações. Inquestionavelmente, o caso da Haas é um sucesso, dando credibilidade aos critérios e ao processo da FIA.

As ambições da Andretti

A notícia de que a FIA está considerando expandir o grid da F1 foi bem recebida por todos, mas especialmente na América do Norte, com Michael Andretti buscando levar o nome da sua família ao Mundial.

Já faz mais de um ano que Andretti vem falando abertamente sobre seus planos de estabelecer uma operação na F1, revelando em Miami no ano passado que estava dando andamento aos planos de aumentar sua sede em Indianápolis para a equipe mesmo sem ter a entrada aprovada. Sua abordagem é marcada pela persistência, estando presente em vários GPs ano passado para conversar com os envolvidos no processo, incluindo Sulayem.

Mas o grande problema de tudo isso é que não havia um processo formal para dar seguimento. Não importava o quanto que Andretti falasse à FIA e as equipes que queria entrar na F1, porque não havia o mecanismo em vigor para fazer isso acontecer. Mesmo que tudo estivesse pronto para que isso acontecesse, e que a proposta enchesse os olhos de todos, a falta do processo representava uma porta fechada.

Agora isso deve mudar. Se o plano de Sulayem for adiante, isso vai abrir a porta e dar a luz verde para a manifestação de interessados. E certamente Andretti será o primeiro da fila.

Michael Andretti, Chief Executive Officer & Chairman Andretti Autosport

Michael Andretti, Chief Executive Officer & Chairman Andretti Autosport

Photo by: Andreas Beil

Olhando os critérios citados acima, não há dúvidas sobre as habilidades técnicas e recursos da Andretti, visto sua presença na IndyCar, Supercars e mais, ou sua experiência e recursos humanos. Sobre a questão financeira, Andretti vem reforçando há meses que está resolvida, aproveitando o boom de popularidade da F1 nos EUA.

Mas o ponto D é o que pode causar mais questionamentos, particularmente com a necessidade de apoio das outras dez equipes, algo que precisa ser conquistado, sem relação alguma com o interesse da FIA em expandir o grid.

A questão dos 200 milhões de dólares

A possível entrada de uma nova equipe americana na F1 anima os fãs. Andretti disse em Miami em maio que "milhões de pessoas estão abraçando a ideia", mas admite que "não são as pessoas corretas no momento".

Ele se referia às outras equipes. Até agora, apenas McLaren e Alpine declararam publicamente seu apoio aos planos da Andretti. Zak Brown, CEO da McLaren, é próximo de Michael, especialmente após a entrada conjunta de Fernando Alonso nas 500 Milhas de Indianápolis em 2017, enquanto sua equipe, a United Autosports trabalha com a Andretti na Extreme E e na Supercars.

Já a Alpine pode ser por outro interesse. Rumores indicam que a Renault seria a fornecedora de motores da Andretti.

Mas as outras oito equipes têm uma recepção muito diferente à possibilidade da Andretti chegar ao grid, especialmente pelo impacto financeiro que isso representaria.

Atualmente, a F1 distribui os fundos de prêmios às equipes com base na posição final no campeonato e pagamentos fixos divididos por dez, para cada equipe. No Pacto de Concórdia atual, assinado em 2020 e que entrou em vigor em 2021, sendo válido até 2025, esse foi considerado o modo mais igualitário.

Mick Schumacher, Haas VF-22, Lance Stroll, Aston Martin AMR22, Daniel Ricciardo, McLaren MCL36, Kevin Magnussen, Haas VF-22, the remainder of the field at the start

Mick Schumacher, Haas VF-22, Lance Stroll, Aston Martin AMR22, Daniel Ricciardo, McLaren MCL36, Kevin Magnussen, Haas VF-22, the remainder of the field at the start

Photo by: Simon Galloway / Motorsport Images

A preocupação das equipes é que, ao acrescentar uma 11ª equipe, cada uma perderia 10% de suas receitas, o que significa que, para elas, é preciso provar, por A+B, que a nova entrada seria algo a acrescentar ao esporte, compensando essa perda. Como disse Toto Wolff: "Se uma nova equipe entrar, como você pode provar que isso traz mais dinheiro do que está custando?".

A F1 tenta combater isso ao acrescentar um fundo de diluição no Pacto de Concórdia, ou seja, uma nova equipe precisa pagar 200 milhões de dólares para se juntar ao grid. Isso seria dividido entre as equipes existentes de forma a compensar os 10% perdidos. Mas menos de dois anos após o acordo, já há equipes pedindo para que esse valor seja aumentado.

"O fundo de diluição foi acordado há alguns anos, quando o valor da Fórmula 1 era outro", disse Gunther Steiner, da Haas, em junho. "Acho que uma das coisas que precisamos fazer é reajustar ao mercado atual, que seria muito mais que o atual. Mas acho que é um processo muito difícil".

Ter as dez equipes ao lado será o maior desafio da FIA caso a Federação realmente queira uma nova no grid. Apesar de ser capitaneado pela FIA, esse processo envolve também a F1 e as equipes. Todas precisam concordar com os compromissos necessários.

Agora, a F1 precisa de uma 11ª equipe?

A F1 sempre deixou seu posicionamento claro, de que estaria aberta a acrescentar uma nova equipe, mas apenas se ela puder provar o valor que acrescentaria a todo o campeonato.

Em agosto, em meio às declarações de Andretti, o CEO Stefano Domenicali disse que "não é um problema de quantidade", já que não vê "como fraqueza o número atual de equipes na F1", sentindo que a força atual do grid acaba com qualquer medo sobre a perda dos times atuais - um temor que surgiu com os casos da Caterham, Manor e da HRT.

Vitantonio Liuzzi, HRT F111 leads team mate Daniel Ricciardo, HRT F111

Vitantonio Liuzzi, HRT F111 leads team mate Daniel Ricciardo, HRT F111

Photo by: Sutton Images

"Precisamos de uma entidade, uma equipe ou uma montadora que seja realmente sólida, forte e com um comprometimento absoluto com um futuro incrível a longo prazo", disse Domenicali dias antes do anúncio da entrada da Audi em 2026.

A chamada por projetos interessados pode trazer outros nomes interessados, talvez aqueles que Domenicali disse em agosto que são menos vocais que a Andretti. Sabemos que a Porsche está considerando o que fazer após o fim das negociações com a Red Bull; ter uma montadora como essa no grid claramente é algo que traz o valor que a F1 busca com novas equipes.

Por mais animador que seja para os fãs a perspectiva de uma nova equipe e de mais pilotos no grid no futuro, há um longo caminho a ser percorrido antes de termos algo concreto. O que Sulayem fez foi apenas um pequeno primeiro passo.

Se o plano progredir, pode ser uma das maiores histórias políticas da F1 em 2023, caso o status quo atual da categoria considerar abrir espaço para mais uma cadeira na mesa, e quais termos sejam exigidos pelas equipes para que isso aconteça.

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