ANÁLISE: Por que o teto orçamentário da F1 corre risco de "game over" já em seu primeiro ano

Paddock e público esperam a divulgação do resultado da auditoria dos relatórios financeiros de 2021 das equipes

Sergio Perez, Red Bull Racing RB18, Charles Leclerc, Ferrari F1-75

Após meses de análise e inúmeros atrasos, a FIA finalmente está prestes a anunciar os resultados de sua auditoria dos relatórios financeiros das equipes da Fórmula 1 para o campeonato de 2021, em meio a preocupações de que um passo errado pode sinalizar o fim da linha para o teto orçamentário, uma novidade introduzida no ano passado com promessas de revolucionar o esporte.

Este resultado confirmará se as equipes cumpriram ou não com o teto orçamentário de 145 milhões de dólares que estava em vigor para o ano passado. Aqueles que receberem o ok, terão um certificado de compliance. Quem não cumprir, passará por uma audiência antes de sofrerem punições.

Leia também:

Mas em vez de ser apenas um momento protocolar, as especulações no paddock de Singapura de que duas equipes teriam estourado o teto deixaram o esporte em polvorosa pelo que pode ser um anúncio significativo.

Com o teto orçamentário sendo um componente vital dos planos da F1 para aproximar o grid a longo prazo, ao limitar os gastos entre os competidores, a FIA enfrenta um grande dilema pela frente sobre como enfrentar potenciais problemas.

De um lado, pegar pesado com as equipes que excederam o teto de gastos o início de uma nova era com esses regulamentos, arriscando causar uma nova controvérsia em cima de uma temporada 2021 que já foi muito polêmica.

De outro, 'passar o pano' para potenciais quebras ou dar punições fracas podem abrir caminho para uma enxurrada de problemas nos outros anos, com as equipes gastando além do teto sem a preocupação de que algo realmente sério vá acontecer.

Não é surpresa para ninguém que a Ferrari tenha falado tão abertamente em Singapura sobre a importância deste momento para a F1. Laurent Mekies, diretor esportivo, disse: "É um teste vital para o teto. E se não passarmos nesse teste, é provavelmente fim da linha, porque as implicações são gigantescas".

Charles Leclerc, Ferrari F1-75, George Russell, Mercedes W13

Charles Leclerc, Ferrari F1-75, George Russell, Mercedes W13

Photo by: Mark Sutton / Motorsport Images

O que deixou equipes de ponta como Mercedes e Ferrari tão 'ouriçadas' com potenciais excessos de gastos pelos demais é que eles sabem o quanto de performance eles deixam de conquistar ao seguir rigorosamente o teto.

O medo é que, se outras equipes encontrarem modos de exceder o teto mantendo-se dentro da letra da lei, ou que ficam felizes em gastar a mais e receber as sanções, eles também serão obrigados a mudarem as táticas.

A submissão da Red Bull

Apesar dos holofotes estarem voltados à Red Bull e as suspeitas de que os gastos com atualizações tenham ido além do que os demais fizeram, Christian Horner sempre deixou claro que a submissão do relatório de 2021 estava abaixo do limite.

Na verdade, alguns dizem que as contas auditadas estavam milhões de dólares abaixo dos 145 milhões, e não foram impactados pelas explicações divulgadas recentemente pela FIA.

"Está significativamente abaixo", disse. "Com as explicações, estaremos ainda mais abaixo...".

O julgamento final, claro, é da FIA, do mesmo jeito que as autoridades fiscais muitas vezes não concordam com a avaliação feita por cada pessoa. Apenas a FIA pode bater o martelo sobre o valor justo dos gastos da Red Bul, e quanto que o trabalho da Red Bull Technology ajuda no orçamento da F1.

Além disso, a FIA precisa tomar uma decisão sobre quais gastos são referentes à temporada 2021 e quais são mais voltados para o desenvolvimento do modelo de 2022. E é por isso que há muito interesse no resultado que será divulgado, especialmente pelas equipes que sentem que nem todas estão operando com as mesmas restrições.

Como Mekies disse: "Acho que a preocupação vem quando se pensa no nível de restrições que foram impostas às equipes maiores, e aí você percebe quanto tempo de volta você ganhará se não seguir rigorosamente. Estamos muito limitados, e qualquer milhão, qualquer gasto a mais no teto, virará alguns décimos no carro".

Max Verstappen, Red Bull Racing RB18

Max Verstappen, Red Bull Racing RB18

Photo by: Erik Junius

Mas a situação não é importante apenas para as equipes maiores, porque se a situação do teto evoluir para uma situação de 'Velho Oeste', onde todas podem decidir uma atitude de despreendimento com o limite, isso joga fora toda a expectativa de nivelar o grid.

Aí o risco é de que as equipes maiores simplesmente irão retornar seus gastos excessivos, levando de boa as penalizações, sabendo que, no fim, eles terão um carro muito mais rápido. É por isso que o modo como a FIA lidará com o teto orçamentário, e o quão transparente esse julgamento será é também de interesse das equipes menores.

As memórias do acordo secreto da FIA com a Ferrari sobre o motor de 2019 ainda segue sendo um assunto amargo pelo paddock. Por isso a FIA sabe que não terá uma tarefa fácil ao criar uma resposta que deixa todos os envolvidos felizes caso alguém tenha quebrado o teto. E se todas as 10 equipes passarem pelo teste, também deixará dúvidas se não houver uma explicação da Federação.

Como disse Gunther Stenier: "Se há uma violação, eu diria que precisamos garantir que seremos informados: se houver brechas, quais são e o que todos pensam sobre elas. E obviamente brechas significam visões diferentes do regulamento. Então precisamos de explicações sobre isso".

Mantendo os planos

Independente do resultado do anúncio, a mensagem das equipes é clara: a F1 não pode abandonar o teto orçamentário simplesmente porque terá dificuldades em um primeiro momento.

"Sabíamos desde o começo, quando votamos no teto, que seria difícil, primeiro convencer as equipes maiores, e depois policiá-lo", disse Frédéric Vasseur, da Alfa Romeo. "Mas agora que batemos o martelo, temos que ir com tudo, não há como voltar e não temos como parar".

Apesar da dor que o teto causou às equipes de ponta, que tiveram que fazer cortes para se manterem abaixo do teto, eles também concordam que esse foi o caminho correto. A chave é garantir que ele seja justo para todos.

"Nós decidimos seguir o caminho do teto, e queremos dar às equipes menores a chance de lutar contra as maiores", disse Toto Wolff. "Então fomos obrigados a reestruturar nossos negócios, tirando dezenas de milhões de dólares para cumprir o teto, para tornar as outras equipes competitivas".

"Acho que todo o propósito desse exercício é manter todos no mesmo guarda-chuva, e que não se torne um campeonato de contadores. Isso vai contra o que todos nos comprometemos".

Toto Wolff, Team Principal and CEO, Mercedes AMG

Toto Wolff, Team Principal and CEO, Mercedes AMG

Photo by: Simon Galloway / Motorsport Images

Mesmo para a Red Bull, que ficou irritada ao ver os rivais apontando os dedos, como o processo se desenvolve a partir daqui é algo intrigante de se acompanhar, já que ela também apoia o teto apesar dos sacrifícios.

"Acho que é algo positivo que temos na F1, que impacta os gastos. Ouvi que uma equipe precisou demitir 40 pessoas. Na Red Bull, foram 90, e o controle do teto orçamentário foi o mais rígido possível em todas as áreas".

"Acho que é algo que a FIA pode policiar mas, inevitavelmente, teremos audiências e estamos vendo retificações, mesmo após a submissão do ano passado, que pode criar um impacto material nos relatórios que fizemos em março".

"Então, claro, sempre haveria essa curva de aprendizado, tanto para a FIA quanto para nós".

Faça parte da comunidade Motorsport

Join the conversation
Artigo anterior Honda fortalece parceria com Red Bull e AlphaTauri e "retorna" à F1 no GP do Japão
Próximo artigo F1: FIA adia divulgação de relatório sobre teto de gastos das equipes

Principais comentários

Cadastre-se gratuitamente

  • Tenha acesso rápido aos seus artigos favoritos

  • Gerencie alertas sobre as últimas notícias e pilotos favoritos

  • Faça sua voz ser ouvida com comentários em nossos artigos.

Motorsport prime

Descubra conteúdo premium
Assinar

Edição

Brasil Brasil